De vez em quando Satanás vem
me visitar e bater um papo, essas visitas sempre rendem uns diálogos
interessantes. Nos últimos tempos tem vindo com frequência, principalmente na
hora em que eu levanto pra ir trabalhar. Ele gosta de conversar quando estou com
sono, porque é um momento que não penso muito, e as chances de enrolá-lo são
menores.Normalmente o diabo aparece depois das 23 horas, o prazo de validade para o meu
discernimento em qualquer assunto. Depois desse horário o demo não
diz nada, apenas sobe e fica sentado ao meu lado observando todas minhas
ações. Depois esfrega na minha cara tudo, absolutamente tudo, que eu fiz
durante o dia. A semana. À noite. A vida.
Em uma de suas aparições, não lembro se aconteceu mês passado ou retrasado, ou se foi
ontem. Bom, não importa. Ele estava disposto a falar e quando isso acontece é melhor
deixar que o demônio fale, pois, fugir dele nunca é uma boa ideia.
- Sei que está acordada.
Vamos lá, senta aí que eu quero falar com você.
Detesto que falem comigo enquanto
ainda estou deitada, olhei de lado, respirei fundo e disse:
- Porra, mas por que tão
cedo? Já veio me atormentar?
-Qual é?! Eu nunca subo com
a intenção de te irritar. É que tenho te observado e você está estranha. Mais
do que o costume, mais do que os que você chama de amigos estão habituados a
perceber e mais até do que sua família está acostumada a ter de você. E eu sei
o que acontece, mas preciso te ouvir, e assim, poderei dar meu parecer. Aliás,
você também não tem falado muito comigo, está religiosa? Efeito retardado
daquela bibliada na cabeça?
- Olha só como você é. Você
me conhece, sabe que eu odeio que me acordem, e odeio mais ainda ser analisada
e… - Ele sentou do meu lado e me interrompeu com seu ar sarcástico de sempre:
- Você odeia ser analisada, porque não gosta
de ouvir verdades, meu amor. Saber que não esconde nada de ninguém é o que
te atormenta, não eu.
Olhei bem nos olhos dele,
uns olhos de qualquer cor assustadora, que fitavam minha alma de jeito
indescritível. Sorri, porque ele não estava mentindo, e continuei:
-Oras! Cale-se! Você disse
que queria me ouvir primeiro e já começou a interromper. Pois bem, estou
estranha, eu sei. Estou na minha e quieta, porque não gosto de exposições.
Tenho medo delas.
Ficamos um tempo em silêncio,
não sei exatamente por quantos minutos ou segundos, foi uma pausa longa. Ele
continuou me olhando, acendeu um cigarro, deu uma tragada longa, sorriu
ironicamente e estendeu a mão:
- Aceita?
- Sabe que não fumo. Pare de
rodeios e diga logo o que quer, preciso dormir.
- Não fuma, mas deveria.
Enfim, não vim aqui para discutir seus possíveis vícios… Não hoje. O que
acontece, ma chérie, é que você adora exposições e o que te deixa estranha é a
falta delas. Não hesite. Faça.
- Não tenho disposição para
trocar as máscaras o tempo inteiro. Em alguns lugares não sinto vontade de enlouquecer.
Algumas pessoas não me passam essa segurança, elas me apagam de certa forma. Também
me falta coragem de abandoná-las. Me sobra medo. Com alguns, minha ousadia é
completamente anulada.
Ele deu uma gargalhada, que
se não fosse uma aparição intimista do diabo, teria acordado o prédio inteiro.
Apagou o cigarro, passou a mão no cabelo, me deu um abraço, que gerou uma
mistura de sensações e um beijo na testa. - Uma mania minha de
demonstrar afeto, mas que feita por Satã, não significa mais do que “Sua tola” - e disparou sem meias palavras:
- Você procura o tempo e o
lugar certo para se livrar das máscaras, menina. Isso está completamente fora
do que você é e do que transmite aos outros. A propósito, o que você quer? O que quer sentir? O que deseja transparecer? Qual o alvo a atingir?
-Não sei o que quero.
Sinto-me perdida e não gosto disso. Estou cheia de incertezas e vontades. Anseio
por atitudes melhores e doses mais fortes. Às vezes penso em encher um balde de
merda e depois atirá-lo contra a cabeça de quem vive me tratando com essas
frescuras, esses que vivem falando comigo cheios de formalidade e me contando
histórias ruins... verdadeiramente não sei qual caminho seguir. Acho que quero
pessoas com quem eu possa enlouquecer em paz.
Ele segurou minhas mãos de
uma maneira firme, olhou profundamente nos meus olhos, fez uma longa respiração,
e falou:
- Eu entendo. Aliás, nós nos entendemos, pois,
querendo ou não, somos exatamente iguais. Pessoas diferentes de nós jamais
entenderão a maneira que enlouquecemos, eles não podem aceitar isso. Eles vivem
de pouco. A gente sempre quer muito, vivemos nos excessos. A mediocridade
desses pobres mortais nos minimiza. O tédio nos mata pouco a pouco. A mesmice,
os assuntos torpes, os pratos pouco apimentados, os beijos que não queimam, as mãos
e os olhares que não provocam. Tudo isso mata. Gente que tem o diabo na alma,
que não teme os olhares conservadores, e peca puramente por não suportar uma vida mediana, não aguenta quem
oferece pouco. É inadmissível rodear-se de seres angelicais, ter gestos idealizados e comportamentos perfeitos. São os seus demônios
que trazem à tona suas melhores versões.
Eu não sabia o que
responder, ele dizia a verdade. Apenas baixei o olhar e por alguns instantes, me
despreocupei e pedi para que continuasse falando. E então continuou:
- Seus atos influenciam não
só os outros, mas também a maneira que você se enxerga, garota. Modéstia nunca
foi seu forte. Ter medo não faz parte do personagem que criou. Comigo, se sentir
vontade, pode chorar e reclamar suas angústias. Eu quero todas as suas versões,
conhecer todos os seus tons, me divertir com você, excitar a maioria de suas paixões,
preparar seus drinques mais fortes e presenciar suas melhores noites. Me deixe ser outra parte sua. Aceite esse pacto, pare de se contentar com
pouco.
Era estranho ter alguém me conhecendo
melhor do que todos os outros. Eu tinha medo de estar com o demônio, mas não
conseguia evitar sua presença. Satã oferecia algo diferente. Talvez fosse a
aura e a força que exercia nos lugares em que estava. Seus olhares me
dissecavam, era como se interpretasse o funcionamento de cada órgão meu. Eu
tinha o corpo e alma nas mãos do diabo, e gostava disso.
- Contentar-se com pouco… É,
acho que você está certo. Mas o que caralhos é muito nesse inferno?
Ele balançou a cabeça negativamente,
como se debochasse da minha pergunta e lançou um sorriso sarcástico, ironizando a minha "inocência" de questionar o que era tão encantador no mundo das trevas:
- Você sabe o que é muito, mulher.
E o inferno é um lugar cheio de muitos. O muito de todos está lá, por isso
muita gente o teme. Encare-se no espelho. Reveja suas ações e por favor, não
fuja do caos.
-Por favor, suma. É sério.
Ele sorriu novamente, passou as mãos em minhas coxas, me encarou, se levantou, e em vez de ir embora, resolveu aproximar-se de novo. Eu continuava sentada na
cama tentando absorver tudo o que foi dito e calculando as horas de sono
que ainda me restavam. Ali bem próximo, com a respiração sincronizada à minha, o demo ficou encarando todo meu universo, parece até que
lia o que eu estava pensando, era como se pudesse contar cada poro de minha pele. Eu também o encarei, e dessa vez sem medo dos arrepios que nossas conversas me causavam. Ao mesmo tempo, nós dois lançamos um sorriso satânico e finalmente pude compreender as propostas que havia me feito. Com isso, aceitei seu pacto de pronto, assinei os termos diabólicos com a alma e não havia mais motivos para fugir.
Fui
absorvida por uma coragem insana, que durou até a hora em que acordei. Ela se foi assim que entrei no segundo ônibus amarguramente lotado, às 07h20 da manhã, pra trabalhar no outro canto da cidade. Então, puta da vida, pensei “Típico do demônio me oferecer um pacto que anula as mediocridades e causos sem sal do mundo e depois me jogar violentamente nessa realidade tediosa… Maldito!
”.