domingo, 26 de outubro de 2014

TODO MUNDO PRECISA DE AO MENOS UMA FESTA NO INFERNO ACOMPANHADO DE SEUS DOIS DEMÔNIOS FAVORITOS

Eu tenho alguns demônios, dois deles estão comigo há anos. Juntos, nós três costumamos roubar a cena, não sou modesta, formamos um belo trio. Outras pessoas têm anjo da guarda, eu também tenho um, mas quem mais cuida de mim são esses dois seres enigmáticos.

Como eles são? Bom, ele é de estatura média, cabelos longos e cacheados e sua aparência lembra a de um adolescente. Pois é, mesmo em sua forma demoníaca ele não perde o ar de criança, crianças tem esse ar diabólico, compará-las com seres celestiais pra mim é um grande erro. Outra coisa nesse meu demoniozinho, que ele tem de sobra e eu não, é a paciência. Ele tem a missão de aguentar as piores coisas da vida: Duas mulheres. Ao mesmo tempo.

E ela? Ah, ela é uma coisa bem difícil de descrever. Enquanto ele tem a missão de ter paciência, ela tem a missão de testar o limite de todos nós. Eu disse que ela é uma coisa, né? Pois bem, é isso mesmo: Uma coisa! E quando assume sua verdadeira forma, ela vem pra matar e mata. Ela é uns 10 cm mais alta que eu, tem o corpo curvilíneo, olhar marcante, um belo par de seios, cintura fina, quadril largo, coxas grossas… Enfim, uma típica “demônia”, com cinismo inexplicável e habilidade de sobra pra fazer dançar um paraplégico. Quando saio com eles, por obrigação tenho de me montar diabolicamente também, eles pedem, e como facilmente mandam em mim, acabo obedecendo.

Saí de casa para encontrá-los, o horário combinado era às 21h30, e lá estava eu no ponto de encontro, esperando meus bonitos e imaginando se estava vestida do jeito que pediram. Afinal de contas, você não pode ir ao inferno de qualquer maneira. É um lugar importante, deve estar como manda o costume da casa.

Andei até o local, me equilibrando em saltos dignos de um travesti, torcendo pra que a chuva não estragasse meu cabelo, pensando na transparência da blusa e conferindo as unhas vermelhas a cada 10 segundos, pois esmalte descascado é de uma ofensa irreparável aos deuses. E aos demônios.

Por volta das 23h, sempre esse maldito horário, meus diabinhos chegaram. Ele veio com a camiseta de uma de minhas bandas favoritas, Kiss, que tem muito poder sobre mim, me domina facilmente. Ela também estava com saltos enormes, os dela eram vermelhos, vestia um corset preto em couro com um zíper frontal muito sugestivo. O cabelo tinha luzes que deixavam as linhas do rosto mais definidas, os olhos estavam bem delineados e um batom roxo que deixava sua boca maior e ainda mais bonita.

-Boa noite, amor. – Me cumprimentou o pequeno satanás dando um beijinho em minha testa.

 Em seguida a diabólica se aproximou:
- Amei seu sapato! Você está linda, vai me deixar maluca hoje. Mais do que o costume. Estou sentindo.

Sorri, mas deveria estar puta da vida pelo atraso deles. Perguntei aonde iríamos e ela me respondeu enquanto éramos guiadas por nosso garoto:

- Na programação de hoje temos Kiss e AC/DC, o diabo quer nos ver dançando. Quer que esses mortais idiotas lamentem ainda mais a vida de merda que levam. Exibicionismo é a palavra de ordem. Nada menos que isso fará sentido, nada menos será permitido. Ele nos prometeu uma surpresa também, nos resta aguardar…

A curiosidade, o medo, e a queda por exposições estavam transbordando em mim. Pensei em desistir do passeio, mas já que estava lá, não poderia dizer não. Isso não se faz, é golpe baixo até com as criaturas que não prestam.

Chegamos à festa e vários drinks nos foram servidos, ele andava de um lado para outro tentando agradar ao máximo as duas mulheres que tinha, e ela fazia de tudo, chamava e provocava de várias maneiras, até conseguir me levar para o meio da pista, frente do palco, e desta maneira, uma vez que começássemos a dançar, nos tornaríamos o centro das atenções. Assim como desejava o dono da festa.

Com Kiss de trilha sonora não foi difícil se adaptar ao ambiente. Nós duas dançávamos, nosso menino bebia. Nossa dança envolvia olhares e quadris, beijos e abraços, risadas e jogadas de cabelo. Duas vadias numa cena ridícula pra uns e excitante pra outros. Objetivo concluído: Todos estavam nos olhando. As mulheres condenando nossa postura e os homens cumprimentando o cara que nos acompanhava “Você é sortudo pra caralho!” Ele admitia a sorte, mas de verdade achava aquilo tudo muito normal.

Assim que acabou a rodada de Kiss, estávamos os três rindo do tumulto, bebendo e comentando cada olhar que recebemos:

-Vocês duas ficam extremamente lindas dançando. Percebi vários mortais de olho, não consigo sentir ciúmes. Fiquei orgulhoso. Muito obrigado. – Disse sorrindo e nos abraçando o nosso paciente guardião.

Chamávamos os outros de mortais, porque quando estávamos juntos, subíamos naquela nuvenzinha que diferencia os seres terrenos dos sobrenaturais. Era algo mágico, nada era forçado. Os que se sentiam atraídos participavam da nossa cena com o propósito simples de rir de todos os outros que eram muito iguais. E muito chatos.

Aquela noite ainda não havia terminado, começou a farra de AC/ DC com suas músicas puramente sexuais e dançantes. Seguimos o proposto das melodias, até que chegou o dono da festa, que de longe nos observava:

- Vejo que está gostando da festa. Pensei que não viria… Perdeu o medo das exposições?

Passei a mão no cabelo, sorri e olhei bem pra ele, lembrando-se de nossa última conversa:

- Usar meus dois demônios favoritos para me trazer aqui é uma ótima maneira de me encorajar. E você caprichou na música hoje, meu amigo. Sinto-me parte da turma.

Meus dois e o Satã se olharam sorrindo ironicamente. Eu sempre fiz parte da turma, embora negasse e fugisse disso.

- Você é de um humor inexplicável, garota – Disse o diabo –A propósito, a próxima música é nossa. Eu, você e ela, dançaremos do meu jeito, pois estamos no salão de festas da minha casa. – E dirigindo-se ao nosso rapaz continuou falando - Querido aprendiz, sirva-se da bebida que quiser. Cuidou bem dessas mulheres, mas sabe que na verdade elas são minhas.

Nosso menino aceitou, e nos trocar por baldes e mais baldes de cerveja, não seria sacrifício nenhum.
 E então chegou a hora de dançar…

Era Dirty Deeds Done Dirt Cheap em som ensurdecedor. O Diabo no meio, com sua garrafa na mão, eu de um lado, possuída pela música, e ela do outro no ritmo infernal que aqueles riffs ecoavam.  Foram os momentos mais sensuais que tive naquele lugar, o povo que assistia à banda abriu espaço para nós, e nós nos esquecemos deles. Comportamo-nos como se fôssemos os únicos ali.

Ele tinha uma força surpreendente, não soltou nenhuma das duas em nenhum segundo, suas pausas eram apenas para tomar uns goles de cerveja e nos olhar fixamente. Conduziu a dança, conduziu nossos corpos e entrou em nossa aura. Entre beijos e solos de guitarra é permitido apenas se deixar levar. Não desejava mais nada e não queria que acabasse, era realmente surreal. Era diabolicamente surreal, e eu gostava disso…

É por ter gostado que eu digo, todos merecem uma festa no inferno, nem que seja ao menos uma vez. E nem é tão longe, o demônio costuma oferecer festas maravilhosas em qualquer lugar.


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