Eu tenho alguns demônios,
dois deles estão comigo há anos. Juntos, nós três costumamos roubar a cena, não
sou modesta, formamos um belo trio. Outras pessoas têm anjo da guarda, eu
também tenho um, mas quem mais cuida de mim são esses dois seres enigmáticos.
Como eles são? Bom, ele é de
estatura média, cabelos longos e cacheados e sua aparência lembra a de um
adolescente. Pois é, mesmo em sua forma demoníaca ele não perde o ar de
criança, crianças tem esse ar diabólico, compará-las com seres celestiais pra mim
é um grande erro. Outra coisa nesse meu demoniozinho, que ele tem de sobra e eu
não, é a paciência. Ele tem a missão de aguentar as piores coisas da vida: Duas
mulheres. Ao mesmo tempo.
E ela? Ah, ela é uma coisa
bem difícil de descrever. Enquanto ele tem a missão de ter paciência, ela tem a
missão de testar o limite de todos nós. Eu disse que ela é uma coisa, né? Pois
bem, é isso mesmo: Uma coisa! E quando assume sua verdadeira forma, ela vem pra
matar e mata. Ela é uns 10 cm mais alta que eu, tem o corpo curvilíneo, olhar
marcante, um belo par de seios, cintura fina, quadril largo, coxas grossas…
Enfim, uma típica “demônia”, com cinismo inexplicável e habilidade de sobra pra
fazer dançar um paraplégico. Quando saio com eles, por obrigação tenho de me montar
diabolicamente também, eles pedem, e como facilmente mandam em mim, acabo
obedecendo.
Saí de casa para
encontrá-los, o horário combinado era às 21h30, e lá estava eu no ponto de
encontro, esperando meus bonitos e imaginando se estava vestida do jeito que
pediram. Afinal de contas, você não pode ir ao inferno de qualquer maneira. É
um lugar importante, deve estar como manda o costume da casa.
Andei até o local, me
equilibrando em saltos dignos de um travesti, torcendo pra que a chuva não
estragasse meu cabelo, pensando na transparência da blusa e conferindo as unhas
vermelhas a cada 10 segundos, pois esmalte descascado é de uma ofensa
irreparável aos deuses. E aos demônios.
Por volta das 23h, sempre
esse maldito horário, meus diabinhos chegaram. Ele veio com a camiseta de uma
de minhas bandas favoritas, Kiss, que tem muito poder sobre mim, me domina
facilmente. Ela também estava com saltos enormes, os dela eram vermelhos,
vestia um corset preto em couro com um zíper frontal muito sugestivo. O cabelo
tinha luzes que deixavam as linhas do rosto mais definidas, os olhos estavam
bem delineados e um batom roxo que deixava sua boca maior e ainda mais bonita.
-Boa noite, amor. – Me
cumprimentou o pequeno satanás dando um beijinho em minha testa.
Em seguida a diabólica
se aproximou:
- Amei seu sapato! Você está
linda, vai me deixar maluca hoje. Mais do que o costume. Estou sentindo.
Sorri, mas deveria estar
puta da vida pelo atraso deles. Perguntei aonde iríamos e ela me respondeu
enquanto éramos guiadas por nosso garoto:
- Na programação de hoje
temos Kiss e AC/DC, o diabo quer nos ver dançando. Quer que esses mortais
idiotas lamentem ainda mais a vida de merda que levam. Exibicionismo é a
palavra de ordem. Nada menos que isso fará sentido, nada menos será permitido.
Ele nos prometeu uma surpresa também, nos resta aguardar…
A curiosidade, o medo, e a
queda por exposições estavam transbordando em mim. Pensei em desistir do
passeio, mas já que estava lá, não poderia dizer não. Isso não se faz, é golpe
baixo até com as criaturas que não prestam.
Chegamos à festa e vários
drinks nos foram servidos, ele andava de um lado para outro tentando agradar ao
máximo as duas mulheres que tinha, e ela fazia de tudo, chamava e provocava de
várias maneiras, até conseguir me levar para o meio da pista, frente do palco,
e desta maneira, uma vez que começássemos a dançar, nos tornaríamos o centro
das atenções. Assim como desejava o dono da festa.
Com Kiss de trilha sonora
não foi difícil se adaptar ao ambiente. Nós duas dançávamos, nosso menino
bebia. Nossa dança envolvia olhares e quadris, beijos e abraços, risadas e
jogadas de cabelo. Duas vadias numa cena ridícula pra uns e excitante pra
outros. Objetivo concluído: Todos estavam nos olhando. As mulheres condenando
nossa postura e os homens cumprimentando o cara que nos acompanhava “Você é
sortudo pra caralho!” Ele admitia a sorte, mas de verdade achava aquilo tudo
muito normal.
Assim que acabou a rodada de
Kiss, estávamos os três rindo do tumulto, bebendo e comentando cada olhar que
recebemos:
-Vocês duas ficam
extremamente lindas dançando. Percebi vários mortais de olho, não consigo
sentir ciúmes. Fiquei orgulhoso. Muito obrigado. – Disse sorrindo e nos
abraçando o nosso paciente guardião.
Chamávamos os outros de
mortais, porque quando estávamos juntos, subíamos naquela nuvenzinha que
diferencia os seres terrenos dos sobrenaturais. Era algo mágico, nada era
forçado. Os que se sentiam atraídos participavam da nossa cena com o propósito
simples de rir de todos os outros que eram muito iguais. E muito chatos.
Aquela noite ainda não havia
terminado, começou a farra de AC/ DC com suas músicas puramente sexuais e
dançantes. Seguimos o proposto das melodias, até que chegou o dono da festa,
que de longe nos observava:
- Vejo que está gostando da
festa. Pensei que não viria… Perdeu o medo das exposições?
Passei a mão no cabelo,
sorri e olhei bem pra ele, lembrando-se de nossa última conversa:
- Usar meus dois demônios
favoritos para me trazer aqui é uma ótima maneira de me encorajar. E você
caprichou na música hoje, meu amigo. Sinto-me parte da turma.
Meus dois e o Satã se
olharam sorrindo ironicamente. Eu sempre fiz parte da turma, embora negasse e
fugisse disso.
- Você é de um humor
inexplicável, garota – Disse o diabo –A propósito, a próxima música é nossa.
Eu, você e ela, dançaremos do meu jeito, pois estamos no salão de festas da
minha casa. – E dirigindo-se ao nosso rapaz continuou falando - Querido
aprendiz, sirva-se da bebida que quiser. Cuidou bem dessas mulheres, mas sabe
que na verdade elas são minhas.
Nosso menino aceitou, e nos
trocar por baldes e mais baldes de cerveja, não seria sacrifício nenhum.
E então chegou a hora
de dançar…
Era Dirty Deeds Done Dirt
Cheap em som ensurdecedor. O Diabo no meio, com sua garrafa na mão, eu de um
lado, possuída pela música, e ela do outro no ritmo infernal que aqueles riffs
ecoavam. Foram os momentos mais sensuais que tive naquele lugar, o povo
que assistia à banda abriu espaço para nós, e nós nos esquecemos deles.
Comportamo-nos como se fôssemos os únicos ali.
Ele tinha uma força
surpreendente, não soltou nenhuma das duas em nenhum segundo, suas pausas eram
apenas para tomar uns goles de cerveja e nos olhar fixamente. Conduziu a dança,
conduziu nossos corpos e entrou em nossa aura. Entre beijos e solos de guitarra
é permitido apenas se deixar levar. Não desejava mais nada e não queria que
acabasse, era realmente surreal. Era diabolicamente surreal, e eu gostava
disso…
É por ter gostado que eu
digo, todos merecem uma festa no inferno, nem que seja ao menos uma vez. E nem
é tão longe, o demônio costuma oferecer festas maravilhosas em qualquer lugar.
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