terça-feira, 21 de agosto de 2018

QUE ACABE PELA MANHÃ ESSE LIXO QUE SOU E SINTO

E de repente tudo se fez escuridão. Não havia forças pra lutar, vontade de gritar, impulso pra correr...nada. Não havia mais nada aqui dentro.
E eu tentei. Tentei não pensar, tentei ocupar a cabeça, conheci gente nova, visitei lugares desconhecidos, matei vontades antigas e ainda sou um ser insuficiente. Nada me faz bem, só suga. Só me crescem as faltas, a vontade de chorar, os sentimentos de não pertencer à natureza alguma. Não sou de nenhuma espécie. Nem família eu tenho. Ninguém que se importe.

Mas que se danem os outros, deixei de fazer comparações. Voltei a estudar. Dancei outros ritmos. Procurei mais de um emprego, de alto a baixo. Segui e desobedeci conselhos. E de nada valem as boas notas, de nada vale ser presente. Saber falar corretamente também não adianta. Uma entrevista não dava certo por pouca experiência. A outra não dava certo por muita experiência. Eu estou velha. Tudo recém construído e arruinado, tal qual a música eu estou todinha fora da nova ordem mundial.
Não entendo nada sobre mim, só sei confortar e dialogar com alheios. Desisto fácil de seguir meu rumo e quase sempre me arrependo dos meus ímpetos de coragem, eu me conformo com qualquer coisa.
Como pode tanta gente cu dar certo? Como pode alguém nunca despertar o interesse de nada que me ronda? E essa sensação de sacola molhada no estômago, passa quando? Quando isso tudo acaba? Onde aprenderam a tomar tanta distância de mim? De mim e do que desejo, distanciam-se sempre de meus toques, minhas lágrimas, meus anseios... Todos estão sempre tão longe...
Que acabe pela manhã todo esse lixo que sou e sinto. Assim que eu não acordar. Que nada mais de mim exista. Nem mesmo saudade. Sentimento póstumo de nada adianta. Quando isso tudo vai acabar? Se é que um dia acaba...

domingo, 5 de agosto de 2018

MEU NOME É ÁGATHA E VOCÊ PODE PERGUNTAR SEMPRE QUE PRECISAR

Meu nome? Bem, meu nome é Ágatha. Sim, é assim que me chamo. E que me chamam também.

É, eles chamam. Chamam sempre que precisam de alguma coisa. Que o vazio aperta e o vento sopra forte nas orelhas. E é assim que eles entram nos meus causos. Chamando e gritando meu nome.

Minha vida? Olha, eu não sei como vai. Mas está desconfortável. É... Está esquisito. Não faz muito tempo, se não me engano, quinta-feira passada tive uma crise de ansiedade, um ataque de pânico, frescura, não sei... Saí sem rumo, dei sinal pra qualquer ônibus e entrei, só pra observar o caminho pela janela, com o coração acelerado, chorando e desesperada. Não tinha rumo, nem ponto certo, muito menos dinheiro pra gastar em outro bairro, era vontade de fugir mesmo.

Pra onde? Eu não sei, cara. Acho que queria fugir de mim, não tenho a mínima vontade de ser eu. É bem melhor ser os outros. E tem dia que pra mim não dá, tem dia que eu não posso com a felicidade de ninguém.

Oi, desculpa, não ouvi direito... Por que não quero ser eu? Nem de longe sou quem gostaria de ser. E meus desejos são utópicos. Tudo que acontece na vida alheia é inalcançável por aqui... Sabe como é? Eu, eu, eu não nasci pra isso.

Ninguém resolve meus problemas. Sequer param para ouvir. E quer saber? Todo mundo tem mais com o que se preocupar. E é uma bosta não ser normal. Não sentir normal. É tudo insuficiente. Queria ser pequena e frágil, mas pareço um monstro, e ninguém chega perto, mesmo com esse frio que pede abraços. Eu não sei lidar. Com nada.

Não tenho aquela coisinha que as pessoas têm, aquele ar de despertar atenção, não... tenho isso, não. Sabe aquela sorte de ter com quem contar, ser chamado de amor, família grande reunida, tomar benzatacil pra curar dor de garganta, infecção nasal, diarreia ou qualquer porra? Nunca senti nada nem parecido. Só sofro de rinite. E essa doença nem é tão grave assim...

Nunca cheguei perto da compaixão, sentimentos  recíprocos talvez me matem, como uma dose de aspirina, gotas de dipirona ou uma injeção de iodo. Eu nunca pude tomar as coisas que todos tomam. Ah não ser no cu, no cu eu tomo sempre.

E não vá pensar que é no sentido sexual, minha indiferença é tão grande que nem transar eu transo. Eu não endereço pau algum. Perdi o jeito. Esgotei o estoque de feromônios com fodas rápidas, fiz sexo de brinquedo. Tesão, alma e coração com tempo contado. Igual as fichas do Playland.

Nada durou. Tudo sempre fica  na mesma. E quando acreditei fazer parte de algo me disseram "era brincadeira" e então eu descobri, que com a Ágatha jamais seria amor. Nunca será. E então, essa coisa pra mim já não existe.

Se eu nasci pra alguma coisa? Para não ser amada, certamente. Nasci para não ser importante. Tanto faz ser Ágatha, ou ser ninguém, estar ou não estar triste. Eu nasci pra ser o tanto faz. E nenhuma  lágrima vai ser rolada por mim. Aceitei a condição, não vale de nada relutar. Os vencedores que contem suas histórias, eu fico feliz em procurar um par pra beber comigo e, caso consiga encontrar,  bastará. Conversa e copo cheio.

Confesso que antes de acordar achando tudo indiferente,  já chorei muito ouvindo faz uma loucura por mim, já ouviu? Aquela da Alcione? Chorei de soluçar, juro. Quem no mundo tem essa pessoa que faz loucuras? Eu nem sei o que é loucura, meu jovem. Eu mal conheço gente, meu amor. Pouca coisa me tira de casa.

E olha, meu caro... Já entrei no limite do banco pra pagar cerveja, só porque gostava da companhia, já fui xingada por estender papo e perder a hora, já atravessei cidades, já virei noite, já paguei  hot dog, boquetes e contas nos piores motéis do bairro, agora me pergunta, e por mim já fizeram o quê? Porra nenhuma.

Nem um suco. Um café. Nada. Eu ando com gente que tem pra onde correr quando bate a crise, gente que sabe se virar, gente que não sabe o que é passar sexta, sábado e domingo sem ter pra onde ir e muito menos pra quem gritar.

Eu finjo bem, e é esse o meu maior defeito. Eu não estou bem. E não fumo. Muito menos bebo sozinha. Eu vivo sozinha. E não importa, pra ninguém.

Se tem alguma coisa que eu sei melhor do que alguém? Eu não sei o que é fazer falta, mas me saio bem dançando de improviso em público. Eu também não sei confiar, eu nunca sei se estão comigo porque gostam de mim, ou porque fui o que sobrou, nunca sei de nada.Pra mim, eu sou sempre o motivo da piada. E com isso você pode perceber que não existe nada que eu saiba melhor do que alguém, mas gosto de cozinhar. E um dos meus sonhos e ter uma casa com cozinha grande e fazer qualquer coisa, meu sonho é receber gente em casa.

O que eu mais quero agora? Poxa, nessa você me pegou, eu quero sempre  tanta coisa e tudo ao mesmo tempo. Bom, vamos lá... Queria entder o que há aqui dentro, além de cabelo e peito falso. Gordura, sangue, pelo encravado e cicatriz.  Queria me ver com os olhos de quem anda ou já andou comigo, talvez eu seja mais que isso, mas nunca  ouvi...

Eu sempre exagero ao demonstrar afeto, por vezes acredito que nem sei dar afago. E é cada vergonha que passo, nego...

O que me faz forte? Eu finjo. Assumo a personagem que é boa e feliz em tudo que faz. E um dia ainda vou morrer disso, pode anotar aí. Acontece que não sei confiar. Em nada. E com todos que fraquejei, me fodi.

Até mais,
Me faça suas perguntas sempre que precisar.
Beijos,
Ágatha.