sábado, 11 de junho de 2016

DESTINADO A QUEM SE IMPORTA E NINGUÉM MAIS

 Tem dias que ela sente vontade de vomitar tudo o que vê e sente - naquelas batalhas internas que existem apenas em seus roteiros de conversas imaginárias - , porém, logo desdenha de suas crenças e não dá volume às ideias que a perturbam tanto. Não é coisa de momento, raiva passageira, mania que dá e passa feito brincadeira. A moça crê que o amor deixa marcas que não dá pra apagar. Verdadeiramente, sobre esse tal de amor, nada pode afirmar ou concluir. Ela simplesmente não acredita.
Quando sentia o crescimento de uma nascente, dava um jeito de estancar. Prezava muito suas lágrimas, mas ainda mais suas risadas escandalosas. Não desejava sofrer, esse era o seu maior medo. Sofrimento era o nome do demônio que mais a assombrava. Recolhia tudo que a curva do rio pudesse trazer, antes mesmo de ver correr o braço de mar. Era uma louca, quem podia ler sua alma não acreditava. Ela era magia, miragem, milagre. Era mistério. Era qualquer coisa onde não cabia o meio termo. Tinha ódio de relações com prazo de validade.
Já ouviu centenas de histórias apaixonantes, que no seu mundo eram divinas lendas. Escutava sobre declarações, presentes, alegria, suor frio, ataques de ansiedade por estar perto. Já havia sentido isso, nunca em reciprocidade. Como quando pedia bênçãos de Deus e não era ouvida, a fé não valia de nada se as graças não eram alcançadas. Desistiu e se fez indigna de viver essas histórias. Das vezes que presenteou, nada recebeu em troca. Nem material, muito menos espiritualmente. Quando serviu seus melhores drinks, foi abandonada na mesa.
"De onde vem esse povo apaixonado?" "Como são atraídos?" "Bebem e fumam o mesmo que eu?" Ela se perguntava se já fora a alegria do dia de alguém, se era digna de ter um sentimento assim. Mas de nada valiam seus ataques ansiosos, nunca ninguém vertera uma lágrima com o pensamento voltado para seu ser. Aquela mulher, na verdade era uma menina que chorava sozinha sempre que colocava sua fantasia de deusa.
Queria cuidados, mas tinha medo de ser escravizada por seus gestos, de se tornar dependente do outro, odiava isso. Foi ensinada na cartilha que defendia que não devemos usar alguém pra ser feliz, se não nós mesmos. O outro funciona como complemento, não serve de extensão. A lição mais difícil que tinha pra aprender, que não a deixava raciocinar, mas que também lhe rendia notas altas, todas forjadas, contudo, impressionantes. Sempre sozinha. Sempre auto suficiente. Sempre de mentira.
Como podiam existir tantos atos de amor no mundo e ela não pertencer a nenhum? Talvez seus sinais fossem menosprezados por sua falta de fé perturbadora, acreditavam na personagem. Isso adubava as vozes esquizofrênicas que moravam na sua cabeça, mexia nos controles do volume de suas falas. Mas ela as dominava bem entre um gole e outro, uns tragos e algumas lágrimas. "Calem-se, vozes malditas! Um dia as gritarei. Não agora. Não hoje. Shiu! Me deixem enlouquecer em paz". Liga. Pisa na embreagem até o fim. Engata a primeira. Solta o freio de mão. Tira devagar. Acelera. Sai lentamente e controla. Assim seguia fugindo e largava de correr atrás de quem quer que fosse. Corria demais só pra se sentir bem. Talvez odiasse todos, talvez quisesse pertencer a um bom par. Quem sabe não se sentisse digna de tal coisa? Não tinha nem roupa pra usar, ou arrancar, caso alguém um dia dissesse "Vadia, eu te amo" . Uma vez ouviu, mas não acreditou. Não conseguia. A amar era piada. Só podia ser. Era mais fácil acreditar em coisas ruins. Relembrar rejeições era ato corriqueiro, aceitar declarações era torturar seu miocárdio. Sofria de uma perigosa mania de perseguição, pensava sempre estar passando por testes e desapontando todos. Tinha o orgulho maior que os olhos agateados com delineador forte, o coração em pedaços colados com goma arábica, superbonder e durepox. Nada disso, era toda feita em cristal vagabundo, mas podia fingir bem aos olhos amadores.
A cadela cresceu ouvindo que era inconstante, que o que falasse em pé não sustentaria deitada. Com o tempo isso piorou, o que dizia no caminho, não confirmava no destino. O que recusava sentada, consentia ajoelhada. Deitada. E principalmente posta em quatro apoios. Achava graça e deixava de lado antigas convicções, jamais pediria perdão ou voltaria atrás. Arrependia-se, para depois fazer de novo, obedecendo a única coisa que podia e queria obedecer: O desejo. Nada mais.

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