São dias como esses que me deixam de guarda baixa, imersa numa multidão de vontades e desistências. Tudo em meus toques e olhares tem um quê de me ofereça colo, me abrace por um minuto que seja, mas fique por perto. É confuso. Logo eu que poucas vezes quis ter alguém ao meu lado, me pego afundada numa tarde chuvosa de música, sonhos, fumaça e álcool. Querendo algo que jamais tive em minhas gavetas. Amor.
Eu procuro um amor que ame Elis e goze Bethânia. A força, a personalidade e também a fragilidade de ambas. Visto a calça colorida e deixo os cabelos armados pra mergulhar na fantasia tropicalista e pedir aos sete infernos, e também aos céus, um amor esquerdista irritante que debata Chico e cante Caetano, que prospere e venha comigo todo dia, fazendo quase sempre tudo igual, mas que exista e pulse forte, como as guitarras inesperadas de Pepeu, me beijando até a alma com a flor do desejo das batidas de maracujá. Um amor torto, mas que me chame enquanto correr a barca, do mangue ao cais do porto.
Quero um sujeito que saiba ser doce como Gil, mas que tenha também o jeito maluco e a irreverência sarcástica de Raul. Aí eu quero ver, quenhé que vai guentar uma paixão assim. Uma vontade exagerada cresce nas tardes solitárias como essa. Minhas veias inflam e murcham, queimando por um maluco, safado e romântico igual ao Cazuza. Anseio por um homem sexy e cheio de si, um tipo de Jim Morrisson, louco de ácido ou não, sabendo que pode me despir onde e como quiser. Ah, eu tenho devaneios ridículos e começo a rir de tanta idiotice que passa dentro dessa cabeça.
Admito que tenho uma certa queda por canalhas, por vezes romantizo o que não deveria. No entanto, só estou clamando por um chamego ritmado no funk de Ben Jor, que venha correndo pra me ver toda molhada, linda e despenteada depois do banho sagrado pós um dia cheio de problemas. Que eu seja a nega que dirija o fusca, que ele toque violão me fazendo rir escandalosamente de qualquer besteira. Faça solos de guitarra ou baixo. Seja vocalista ou baterista. Não importa. Eu quero ser a groupie louca, inspiração de versos íntimos e das noites de bebedeira. Estou com sede daqueles amores malucos e sem noção.
Eu procuro um amor que não se envergonhe de rebolar comigo ouvindo Kiss, e dance a dança da mãozinha, com a gravata na cabeça e o copo na mão. Sem o menor temor de parecer ridículo no final da festa de casamento da prima mais bonita com o primo mais velho. Aquele cara que vai entender meu olhar quando eu, na mesma festa, ir dos gritos de Eeee Macarena aos de Vai Safadão. É isso que peço.
O meu jeito desembestado não permite um amorzinho que venere a bossa nova, esse estilo é blasé demais pra funcionar por minhas bandas. Eu me apaixono pelo bicho maluco beleza que lambe veias cerebrais e transforma tudo em coisa única. Única, como a forma rude e o timbre inigualável do Tim. Única, como a poesia e o balanço de Alceu. Eu peço, bebo e viajo demais em noites assim. Da Boa Viagem à Praia Vermelha, numa garrafa só. Completamente só.
Me embriago convicta de que mereço um amor que me mantenha como a Deusa que habita em mim. Que tenha a sensualidade do Magal, me chamando e eu indo, sem frescura. Que ligue em mim a vontade de atirar todas as calcinhas pela casa, como se morasse no palco do Show do Wando. Eu quero agarrar, e soltar nunca mais, um rapaz latino americano, sem parentes importantes, aquele tipo que canta Belchior no bar, ou no banheiro, sem preocupar-se com nada. Um amor largado. Amigo de garçom, de bater altos papos cachaceiros sem pé nem cabeça, muito menos conclusão. Um amor de breguice digna de Reginaldo Rossi. Amor bagaceira, mas amor. Tem dias que eu gosto, e quero ser cuidada por tipos assim. Há finais de domingo que esse é o único pedido que não tem nas opções dos meu aplicativos de Delivery. Pediria um tamanho grande de amores como os descritos nas ficções, se pudesse.
Um príncipe das praias, que tivesse toda a sagacidade do Baleiro, a paciência do Lenine e a voz forte do Ramalho. Ah, vai... Nem sou moldada em tanto romantismo assim. Na verdade, minha fome é de um amor demoníaco como a música dos Stones, aquilo que dá vontade de rasgar as roupas e desalinhar os cabelos, abrir as asas e soltar os tigres e os leões no quintal. Pediria pra sentir por alguém, ou que alguém sentisse por mim, a mesma força dos riffs de AC/DC e dos agudos do Tyler. A força que existe e que arrepia apenas aqueles que passam noites e madrugadas ouvindo, chorando e cantando as baladas de Aerosmith.
Está tudo bagunçado por aqui, isso é tão esquisito, me vem a súbita coragem de cair num amor cheio de briga, bebida e confusão. Imitando a era clássica dos Guns n Roses. Ou então, de enfrentar o meloso drama de negar as aparências e disfarçar as evidências. Amar, entretanto, dizer que não. Isso alimenta a vontade de beber a lá Janis Joplin, viver, dançar e cantar pela paixão, se viciar na droga que é dividir a vida, a casa, os problemas e a cama. Alimenta a coragem, mas dá força ao monstro Hamletesco: Tatuar o nome do amado sendo Amy? Ou ser a deusa solitária, mas sempre desejada, igual a Madonna? O que eu desejo, afinal?
Talvez eu precise de um amante latino, que adore as noites e os vinhos. Que ao pegar em minha cintura deixe meus quadris soltos, como se fosse a Shakira torturando Alejandro Sánz. Ou, quem sabe, eu queira ser um casal típico do Show Business. Beyoncé e Jay Z. Eike e Tina. Sid e Nancy. Jagger e Bowie. Joelma e Chimbinha. Vai saber...
Cá entre nós, caros colegas, eu me casaria com um amor que se afogasse em copos e mais copos de cerveja, que mandasse a lua iluminar meus pensamentos sempre que me sentisse triste. Que explodisse um Raça Negra no almoço de domingo. Aquele tipo que suprisse essa busca. Esse amor, sim. Ia ser pra valer. A vida inteira.
Muito bom este texto, tenho vontade de conhecer alguem assim, que tope altas loucuras, que forme um casal que aproveita a vida de diversas formas, sem se importar com amanhã, muito bom, gostei bastante!
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