quinta-feira, 19 de julho de 2018

QUEM TEM MEDO DO COTIDIANO?

Há dias em que fico me perguntando sobre a vida dos outros é uma curiosidade simples, desejo saber o que aconteceu na vida dessas pessoas para que os dias  de hoje aconteçam. Entende? Imagino a  possibilidade do "e se?" E crio um mundo paralelo, uma vida alternativa, uma segunda chance...

Fui criada por duas mulheres, minha avó e minha mãe. Duas mulheres que viveram separadas  por um tempo, porque mãe não pode  parar a vida pra criar filho, o dinheiro tem que entrar em casa, as contas precisam ser pagas. E maridos, bem, esses não fazem isso. Pelo menos não com elas.  Enfim, minha mãe já crescida voltou a morar com minha avó, e começou a trabalhar,  depois casou,  e o casamento acabou. Depois casou de novo. E eu nasci. E ela se separou. Então desistiu. Copiou a mãe, que pragueja casamentos até hoje, praguejou  até o  da filha, vivia ao lado dos santos e do álcool e pra ela isso bastava.

Mas a filha queria família bonita, hora pra jantar, marido em casa, filho, sobrinho, irmão, churrasco no domingo e cachorros... Pra matriarca era bobagem, já havia casado duas vezes e, como boa sogra, contribuiu bastante para as brigas do casal e fim. Foi bom, enquanto durou. E é normal. Não acontece só na minha casa. Acontece na sua também, não?

Esse ser, hoje com quase 90 anos me deixa inquieta nessas observações cotidianas. Quase entendo o motivo do fim de seus casamentos, é compreensível que os ex maridos não tenham aguentado. E não quero parecer machista, muito menos defensora dos casamentos eternos, não é isso...

Minha vó não espera você chegar em casa para contar problemas - e isso é extremamente errado em qualquer relação, eu aprendi com minha mãe.  Que tem a esperança de que eu seja uma boa namorada/esposa, ela não sabe se quero casar, mas  sonha que eu case e faça diferente do que ela fez. Bom, eu não sei o que quero, mas sigo esse ensinamento seguinte -  Minha mãe depois de estar muito nervosa com minha vó, disse "Filha, quando você casar, e seu marido chegar em casa, não fale das contas pra pagar, nem da comida queimada, nem dos problemas do trabalho... Espere. Espere o cara chegar, tomar um banho, ouça o dia dele e depois sim, converse sobre os problemas. E não jogue os problemas em tudo, do jeito que sua vó faz. Não há homem que aguente isso" .

Minha avó é o tipo de pessoa que liga no seu serviço pra dizer que o frango está muito caro,  que o Corinthians  está perdendo, que não sabe o que vai fazer  de almoço. Mas não sabe perguntar se seu  dia foi bom, se você precisa de alguma coisa ou simplesmente te dar um abraço. Ela não mede palavras pra dizer a comida acabou, que ameaçaram cortar a luz, não sente cheiro ruim nas roupas de cama e faz um inferno se você decide jogar tudo na máquina ou reformar a casa...

Em vez de limpar o leite derramado, ela pergunta quem derrubou o leite. E isso gera briga. Não soluciona nada. Saber quem derrubou o leite não limpa coisa alguma...

Tudo parece o final do mundo, da moça que dorme com o namorado, àquela que tem 60 anos e ainda mora com a mãe. Tudo é um absurdo. Pra ser velho você precisa fazer uma prova e tirar carteirinha de falso moralista, só assim poderá desfrutar das filas exclusivas, embarques preferenciais e condições especiais para empréstimo.

Além das cenas dignas de novela mexicana, ela passa perfume demais e isso ataca minha rinite. Talvez atacasse a dos maridos também. A maneira de demonstrar carinho dela é quase nula, a velha é inflexível e se mostra doce apenas com os gatos. Ou com os vizinhos. Os vizinhos ela trata extremamente bem. E meu pai. Ela gosta do ex genro, como se fosse filho.

Enfim, quando minha mãe me ensinou a  não bombardear meu futuro marido com problemas e a agir diferente da vó, concordei de primeira sem nem questionar. Antes que muitas se revoltem, dizendo que estou aceitando uma posição do patriarcado, "não irrite um homem",  eu explico. A questão aqui não é o homem. É a relação. A dica materna é "não  estrague sua relação".

Ninguém quer chegar em casa ouvindo problema, a gente quer silêncio e colo. Um macarrão cheio de molho bem quente e cremoso. Banho e cama. Simples assim. Ela usou o casamento pra expor, porque isso lhe feria, podia  ter sido diferente, ela sabia como fazer dar certo, no entanto, o gênio da mãe, e também por não existir perfeição, atrapalhou sua vida, nada mais justo do que orientar a geração futura a não cometer os mesmos erros. E tudo bem. Ouvi e guardei. Se um dia precisar usar, estará por aqui em algum canto da minha mente.

Eu tenho medo de envelhecer sozinha. Mais medo ainda tenho de ser como a minha vó. E as constelações familiares dizem que a terceira mulher se parece muito com a mãe da mãe. Merda de missão de vida a minha, não se tornar uma velha chata. Bom, acho que vou falhar e deixar para a próxima encarnação, o medo do cotidiano me vence quase todos os dias.

A minha relação com minha mãe é boa, mas tem suas estremecida. Dias atrás brigamos. E em suas falas de raiva ela disse que sou muito oferecida, e que enjoam fácil de mim pois estou sempre em todos os lugares que me chamam. Tenho que fazer com que sintam minha falta. Eu olhei nos olhos da Suzane Von Richttofen, mergulhei no fundo de sua alma e a entendi perfeitamente. E nem grande herança tenho pra receber... Um apartamento na cohab e sapatos, que nem me servem. Não compensava mata-la, apesar da vontade tentei compreende-la.

Eu não sei se existe quem sinta minha falta, também não acredito que esse alguém existirá um dia. As vidas seguem. E a vida que as mães sonham pra nós, bom, também são utópicas.

Utópica tal qual uma rotina tranquila. E eu temo bastante a tranquilidade.

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