Não via a hora de chegar em casa e apagar, queria me desconectar de tudo e de todos, nunca conseguia, sempre havia uma conversa da qual gostava de participar, ou alguma história nova que adoraria ouvir. Por tempos não falava com o Diabo, nem com Deus, estava afastada de todos os demônios, minha situação era complicada. Bagunçada. Acho que estragada é a palavra certa. Completamente confusa com o possível rumo da minha vida, tomava porres infinitos de uma das bandas que mais gosto em busca de algum alívio, quase sempre encontrava respostas dançando no ritmo maléfico e sexual dos Stones, porém, inacreditavelmente, eles não estavam me curando. “Que caralhos está acontecendo?!”, aumentei o volume, nada que Gimme Shelter em sua versão live com os agudos incríveis da Lisa Fischer não resolva, a canção sempre me ajudou e não falharia se tocada repetidamente num volume infernal.
Pois bem, numa dessas noites em que tinha resolvido morrer por um tempo, enquanto incomodava os vizinhos com a música alta e repetida descaradamente, ele reapareceu com seu ar sarcástico de sempre, convicto de sua beleza e ciente de que eu morria de vontade de contar tudo que estava acontecendo, mas também que era orgulhosa demais para pedir um dedinho de prosa com o Satã.
- Olá! Sentiu minha falta, né? Você não admite que eu te faço bem e que não vive sem mim.
- Acreditei que tivesse desistido de vez de mim, então resolvi não procurar. Talvez fosse melhor desse jeito. Estava por aí me observando?
- É uma visita rápida, achei que chegaria enquanto estivesse dormindo e invadiria seus sonhos como de costume, aliás, sua cabeça está cheia de coisas… Nem em seus sonhos eu tenho conseguido entrar.
- Visita rápida? Não! Por favor, eu estou confusa, preciso falar…. Preciso te ouvir…
- Ainda está ouvindo Stones?
Pensei em dizer que não parei pra ouvir outra coisa, mas ele sabia de tudo, só consegui olhar em seus olhos e respirar fundo. Cantarolando, continuei nosso papo:
- If I don’t get some shelter… Oh, I’m gonna fade away. Sim, ainda estou ouvindo. Não te dá vontade de ser um deles às vezes?
- Sou muito mais que os Stones, eles que são cópias minhas. Bom enfim, não quero falar sobre isso. Vejo que ainda está atrás de raspas e restos e historinhas medíocres… Em anos de convivência, não aprendeu nada comigo?
- Eu já desisti de tentar aprender algo com você. Quanto às raspas, restos e as migalhas dormidas do pão que você amassou, acho que elas ainda me interessarão por uns tempos. Sabe como é, uma reeducação alimentar é difícil no começo, com calma tudo se acerta.
Ele riu, como em nossa primeira conversa, sua risada encheu o quarto, andou até o som, aumentou o volume “I tell you, love sister…♫” dançou como se comemorasse algo e acendeu um cigarro. Voltou seus olhos para mim e continuou:
- Por quê? Por que você insiste nisso? A calmaria é uma droga, eu estou presente no caos, nos momentos mais insanos, na euforia em seu sentido mais puro. E a verdade é que você procura isso, algo que transborde, mas esse medo filho da puta não te deixa seguir. Eu vou perguntar mais uma vez: Por quê?
Verdade que me afastar do demônio trouxe tranquilidade, mas a paz incomodava de um jeito absurdo. Eu não sabia responder o motivo de rondar pessoas e hábitos comuns, casos comuns e lugares comuns. Apenas seguia assim, ficava triste, exagerava nas doses“Stoniânicas” e continuava a viver. Não gostava de nada e de ninguém, não sentia nada que não fosse automático e isso estava me adoecendo.
- Eu não sei o que está havendo! Eu tento fugir de tudo isso que você me mostra e me faz sentir, quero ir para um outro caminho, mas minha vida parece ter sido talhada em uma via de mão única, por mais que eu dê voltas sempre acabo aqui, delirando em papos com o Satanás, achando que milagrosamente tudo irá se resolver… Sem ao menos ter certeza do que eu quero que se resolva.
Estava presa numa rocha em um lugar de difícil acesso. Assim como a música, não conseguia uma satisfação, e por mais que eu tentasse e tentasse, acabava me decepcionando. Meu álter ego funcionava, eu precisava de manutenção. Os momentos de prazer eram rápidos e não tão intensos, poucas risadas tiravam o fôlego, apenas o choro era verdadeiro. Me faltava um milhão de coisas.
O Coisa Ruim, ironicamente tinha seu lado bom comigo algumas vezes, acho que é uma espécie de bruxaria do destino. Tudo estava dando errado, não nos falávamos há tempos, a lua estava em Câncer, era meu inferno astral. Nada dava certo e o tédio corria mais rápido que o sangue em minhas veias. Não tinha mais como aumentar o som, após falar e respirar fundo entrei no ritmo da música de novo e pedi apenas para que ele dançasse comigo. Era isso que me traria à tona de novo, uma dança com o Diabo, nos entendíamos, era a resposta que eu procurava.
- Você sabe que eu estou sempre presente em todos os seus atos e que só é feliz transbordada em caos… Ainda irá fugir?
- Dança comigo. Não quero ouvir mais nada. Não fale mais nada.
- Hoje entramos em Leão, não acha coincidência que eu tenha aparecido? Precisa chegar mais perto de mim, é só um beijo de distância. – Eu ri, pois, o demônio, mencionava um trecho da música favorita dos meus devaneios que não parou de tocar um só instante.
O olhei fundo, nossa distância foi anulada com um beijo tão intenso quanto a todos os outros que já havíamos dado, Lisa começou a cantar novamente e sua voz aumentava de acordo com nossa respiração, minha alma foi guiada pelo Senhor das Trevas, era isso que ele queria e sempre conseguia de mim. Leoninos começavam a nascer no mundo todo, e nós enterrávamos minhas incertezas juntamente com meu inferno astral, a tempestade que ameaçava minha vida veio com a fúria de um dilúvio, jurava que não queria me aproximar do caos novamente, mas foi ele quem me salvou.
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