- Como está agora?
-Eu estou no looping de coragem e covardia, mas os momentos corajosos têm vencido a maior parte do tempo. Acho que dá para mudar tudo e fazer funcionar de acordo com o plano.
- Se desesperou?
-Várias vezes! Cara, eu sempre ouço a voz da minha mãe dizendo que eu sou uma velha e que levo tudo em ponta de faca, ela não está errada, eu levo mesmo. Quando me compara a uma velha chata eu digo que fui criada por duas e então adquiri os hábitos, às vezes ela ri, outras me deixa falando sozinha.
-Eu estou no time da sua mãe, querida. – Os olhos enigmáticos do demônio correram por todo lugar, ele sorriu sarcasticamente como de costume, passou a mão na minha testa num ato atípico de carinho, respirou fundo e continuou.– Você trava muitas batalhas desnecessárias, para com isso! Enfim, já decidiu o que vai fazer?
De verdade, eu tinha muitos planos na cabeça: Uma oração para ser demitida e pegar uma grana, eliminar matérias na faculdade, aprender a dirigir, trabalhar menos, viajar, curtir mais as minhas duas velhinhas e meu gato, tomar uns drinks, dar risada, conversar com gente nova, rever e manter por perto meus amores antigos… A lista do que fazer era gigantesca, só me faltava iniciativa, porém sempre havia algo para me fazer pisar no freio: A conta negativa no banco, as lembranças, a insegurança emocional cada vez maior, o orgulho, a preguiça…
- Não sei ainda, vou começar tirando umas férias. E depois, com jeito, irei acertando tudo.
Novamente Satanás demonstrou afeto, me deu um beijo na testa, aquele beijo que não significava “eu cuido de você” e sim “sua tola. ” De certa forma era uma maneira dele dizer que estaria por perto observando meus passos e pronto para exibir slides de minhas falhas assim que eu me sentisse perdida novamente. Dessa vez não dançamos, nem ouvimos música, apenas conversamos.
Eu gostava de falar com ele, sentia o demônio como um álter ego fortíssimo, gostava da força que sua presença causava, talvez porque todos o evitassem e o temessem, mas de certa forma não deixavam de admirá-lo ou citar seu nome. O chamava o tempo inteiro, na felicidade, tristeza ou raiva. O demônio morava no caos, o caos me salvava, estávamos ligados e não havia mais como disfarçar isso.
- E sobre o amor? Você acredita nessas coisas?
- Hmmm, acredito sim.
-Sério?
- Claro! Amor e reciprocidade são coisas magnificas, se fossem ruins, aconteceriam comigo. Certamente.
Andamos até a sacada, que tinha uma janela ampla da qual podíamos ver o mundo todo, do outro lado morava Deus, que além de vizinho, era também um grande amigo do Diabo, porém, como andava sempre ocupado - uma das coisas ruins de ser onipresente - , não tinha muito tempo para papear baboseiras com seu amigo mal visto.
- Você diz que apenas coisas ruins acontecem com você, menina… Sabe bem que isso não é verdade. Se o Todo Poderoso Alfa e Beta criador da porra toda estivesse aqui, também concordaria que esse drama é inválido. Te acontecem coisas boas sempre, mas essa queda por desgraça faz com que elas sejam anuladas na sua mente. Para com isso, por favor, já disse que é um porre dos piores te aturar assim.
Maldito Demônio! Me lia melhor que todos, aparecia quando não havia ninguém e ainda me jogava no chão numa queda sem escalas. Assim como também podia fazer com que eu me sentisse a bailarina mais charmosa do Oeste em questão de segundos.
Os dramas me perseguem, não passo um dia sem dramatizar meus atos, por mais simples que sejam. Um toque à lá Maria do Bairro, o sofrimento antes de levar o tiro, o pânico de antemão, sempre caracterizam minhas histórias. É uma forma de dar mais aventura a minha rotina monótona. É o que faço para colorir com graça os meus causos. Enfim, com ele não funcionava. Eu forço a barra, confesso.
- O senhor tem razão, talvez seja isso mesmo. Dou muita importância a tudo e dramatizo as coisas em escala astronômica…Opa! Acabei de fazer isso de novo. Ainda não se acostumou?
- Às vezes me irrita. Mas não posso te abandonar, tenho que trabalhar e de alguma maneira, estou envolvido em suas tragédias imaginárias.
-E me diz uma coisa, não tem nada para comer aqui?
- Gorda. Vou ver o que arrumo, bebida nós temos. Ainda há muito o que conversar.
Pois é, tínhamos a vida inteira para conversar. Eu tinha parte com Satã, nossos papos estavam prescritos no contrato de pacto, a sorte só viria no caos e no abandono das inseguranças. Seguíamos assim, eu precisava de tudo o que ele oferecia e tinha resolvido deixar de fugir.
- Jack?
- Jack.
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