Naquela noite Ágatha estava de folga e resolveu descer da nuvenzinha que a distanciava dos mortais, saiu pra curtir um cinema com uma amiga que não via há tempos. Duas almas perdidas em máscaras, duas belas mulheres que encontravam em seus medos uma forma de união... E troca de material suficiente para usar de prova em um tribunal caso fosse preciso. Ramona era mais um dos demônios que Ágatha arrecadou no inferno. Não se sabe realmente o motivo dessa aproximação, as moças costumam não gostar de ninguém que conhecem em festas, porém, na noite em que se viram, seus males estavam alinhados, e quando isso acontece, não existe maneira de fugir e negar o que está escrito no destino, resta apenas aceitar e viver.
Diferentemente da vadia que cobrava por almas, Ramona era um ser angelical no meio de todos os outros. Era dificil imaginar uma mulher com aquela aparência de menina, que deixava os homens loucamente apaixonados apenas por existir, sofrendo por um cara. E ela já tinha sofrido por alguns, até que decidiu revidar e não se apaixonar mais. Já tinha sido a esposa perfeita e relatava que não havia tido nenhum bônus com isso, não ganhou admiração, muito menos reciprocidade. Amou e fizeram pouco disso, resolveu então não entrar novamente nessa coreografia complicada. Podia abusar dos decotes e das provocações, porém, não acreditava mais em promessas de laços eternos e sentimentos verdadeiros. Caiu na bagunça, vivia em noites regadas à riffs malignos, exibições, álcool, sexo e drogas. Toda a diversão que o leitor puder imaginar. Também dividia drinques com Satanás, que ficava muito feliz em ver seus seguidores sem medo dos olhares de reprovação, apenas pecando em alto e bom som para exorcizar tudo que os atormentava na vida.
Como garotas normais, seguiram seu caminho até o shopping para assistir Amy, Ágatha não era tão fã da cantora, a considerava fraca por não saber superar o fim de um relacionamento e deixar se entregar aos vícios, mas a música de Winehouse mexia com sua alma. Ramona trazia seu amor pela estrela no peito. Sabia todas as histórias, se identificava com tudo relacionado, chorava o fato de também só amar o cara errado e tentava convencer sua amiga descrente dos relacionamentos de que o dia em que se apaixonasse, passaria a entender melhor suas aflições. Na volta pra casa, as duas discutiam tudo que absorveram daquele filme e daquela mulher:
- É oficial. O amor não existe. - Disse Ágatha com as mãos completamente engorduradas devido à quantidade obscena de manteiga que pediu em sua pipoca .
- Existe sim, bi. Esse Blake maldito que se aproveitou dela. Ela o amava.
- Olha, eu só acredito na reciprocidade. Eles não estavam na mesma vibe, logo, não era amor. Partia de um só, as chances de dar merda eram de 10 bilhões em 10 bilhões.
-Não acho... Sabe, é dificil quando você ama alguém, achar que o cara te fará mal. Eles usavam drogas juntos, ela acabou se entregando... Era mais fraca que ele, mas mesmo assim continuou amando. Dedicou músicas, focou a arte dela toda pro amor que sentia... O filho da puta que não se importou com nada, a tratou como se fosse só mais uma mulher. É dificil demais suportar isso sobriamente, nas drogas e na música ela tentava fortificar a relação. Não aguentou. Amy era uma mulher maravilhosa, viveu seu amor da maneira mais intensa que pôde.
Uma das coisas que mais encantavam Ágatha, em Ramona, era a força com que a moça que já sofreu inúmeras vezes defendia esse sentimento. Amor, amor, só se falava nisso.
- Sabe, eu não consigo entender. Eu quero amar, aliás, eu amo e você sabe. Mas não consigo emburrecer desse jeito. Mesmo quando você ama demais, você não vira o outro, é impossível controlar outra pessoa. Isso faz mal. Somos seres diferentes e temos a capacidade de amar exatamente por isso. Quando o outro não está sincronizado com você, você se fode. Porque se você quer muito uma coisa, não vai sossegar enquanto não tiver, fará de tudo pra conseguir. Se o outro não quer o mesmo, não vai empenhar a mesma força, tampouco reconhecerá os seus esforços. Fica o tanto fez pelo tanto faz, e isso não é amor. Não pra mim. Acho que amar, é ter alguém que aproxime coisas boas, não alguém que afaste, que te destrua. Tem que sair logo quando perceber que não seguem a mesma estrada.
Ramona concordava em partes, era preciso muita inteligência emocional para sair de uma situação dessas. Mesmo dizendo que não voltaria a se envolver com o amor, ela havia se apaixonado, e novamente não era correspondida. Ágatha entendia os dois lados da história da amiga e ficava intrigada. Como uma mulher daquela, que era desejada por vários homens, podia continuar a sofrer por um cara que não a amava com a mesma intensidade? Talvez a resposta estivesse nas transas, mas recorrendo novamente aos escritos de Henry Miller, também entedia que "O sexo não vive uma experiência separado, apega-se também à pessoa que o possui" e era isso. Ramona havia se viciado no homem, em suas histórias, em seu jeito de ser. Se o vício fosse o sexo, se curaria facilmente.
- E você... Ama alguém assim, Ágatha? Já se viciou em alguém?
- Eu me vicio sempre, esse é o problema. Sou viciada. Mas sou o doente que não admite nem fodendo. Eu me excito demais com meus demônios, mas se eles não estão ardendo no mesmo grau, eu entristeço. Desisti de forçar a barra, passei a me controlar. Posso estar queimando, mas se não estiverem no mesmo nível, não chego beijando, ajoelhando e rasgando a roupa. Aprendi que não vale à pena ter um tesão não correspondido... Perdi muito tempo agindo assim, viveria transas muito melhores se esperasse um pouco mais. Bom, como diz a música: O que está feito, está feito.
- É, eu sei bem disso. Sempre corro atrás, demonstro tudo que sinto, porém, sinto muita falta de ter alguém ardendo junto comigo. Que sinta minha falta, que peça por mim...
Elas se olharam e interpretaram uma o espírito da outra, eram completamente iguais. Uma era a versão forte e a outra a versão mais amável, se entendiam. De certa maneira, sofriam as mesmas angústias. Ramona continuou:
- Te entendo, por isso parei de sair com vários caras. Me interessa apenas um, ele que mexe com tudo que está em mim. Não me importo, nunca pedi para que ele me amasse. Quero apenas aproveitar os momentos que temos juntos, isso me faz bem. Me sinto trouxa quando sofro por ciúmes e tento me afastar, mas não há muito o que fazer ou do que fugir. Ele me faz bem. Gosto do que sou quando estamos juntos.
- Nós e nossa paixão por canalhas né, viado? O jeito de viver no "Não estou nem aí, eu sou assim, você vem porque gosta" é deveras apaixonante... Te contei?? Abortei aquele carinha que só me mandava mensagens na madrugada. Não atendo mais, não mereço isso. Só me procura pra trepar... Por que caralhos eu aceitei isso da primeira vez? Ah é, eu sempre quero transar. Devo ser doente. Mas sério, quando você for homem, não me procure só pra sexo. Até gostava do feedback dele, dizia que eu era muito gostosa e com isso garantia a próxima foda, mas sei lá, isso me cansou demais, bi. Sério, assunto zero do carro até o motel, e quase nada do motel até em casa. Me sentia uma puta comum, uma mulher comum. A única coisa que eu não quero na vida é ser uma mulher comum. Dá pra imaginar isso? Eu, que falo pra porra, não tinha assunto com o cara que me comia. Foi a gota d'água! Matei o cara na Avenida Central, às cinco horas. Não era amor, era um tesão em fogo baixo que servia pra inflar o ego.
Ramona ria descontroladamente das histórias de Ágatha. Provavelmente era uma das poucas pessoas que sabia detalhes do que se passava no mundo daquela maluca. Tinha videos, fotos, relatos, tudo relacionado às aventuras e consultas em que a amiga louca se metia. Elas se confiavam esse tipo de coisa, trabalhavam como cúmplices, e o elo feito naquela noite infernal só se fortalecia.
- Ai sua doida, tá completamente certa! Vou ser sincera com você, te acho uma mulher muito interessante. Quando eu for homem, jamais te procurarei apenas pra trepar. É impossível se aproximar de você só pra isso. Eu gosto do jeito que você fala, das coisas que conta e da maneira que é. Sou viciada em você também.
- Obrigada por me aturar, viado. Você deveria mesmo ter nascido homem pra casar comigo. Me entende melhor que qualquer um.
Poderiam virar a madrugada falando de tudo que tinham medo e também dos melhores dias que passaram uma do lado da outra, mas resolveram dormir. Cessaram todas as vozes de medo num abraço, ali se esqueceram do sentimento de culpa, amassaram seus papéis de trouxa e se ligaram ainda mais, num pacto que só os demônios eram capazes de entender.
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