sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O VELHO E O ÔNIBUS LOTADO DE POBRES QUE ENRIQUECEM RATOS

Você não me conhece, mas me dirige olhares reprovadores. Estou no meu canto e talvez lhe pareça que eu não saque nada, porém, noto que suas ações pra mim são ríspidas. Não dou a mínima para aparências, minha filha. Tenho sofrido muito, vivi muito, e essa sua empáfia, não anula as únicas coisas que me restaram, as histórias que vivi. Sou só mais um cara, um homem comum. Durmo na rua. Rompi com família, trabalho, escola, igreja. Todo tipo de instituição. Saiba que não me orgulho disso, é dificil pra caralho, ninguém quer ficar por perto. Sou um preto, pobre, morador da periferia e corintiano. As pessoas procuram distância de qualquer um com apenas uma dessas características. Eu tenho todas.

Venho andando no meu caminho e mudam de calçada, como se somente pelo meu fenótipo eu pudesse fazer mal à alguém. Vê se pode... Ah, você não sabe o que é fenótipo? São as nossas características externas, esse seu cabelo aí, seus olhos castanhos, os olhos azuis daquele cara que acabou de levantar e sair meu lado, para sentar em outro lugar. Tudo isso é fenótipo, e ao contrário do genótipo, não determina o comportamento de ninguém. Aliás, acredito que nem os genes determinam, eles podem até influenciar algum tipo de gesto, mas vai variar mesmo do conjunto da sua percepção, tudo que você viveu e como interpreta o mundo a sua volta. Sei disso porque uma vez trabalhei na casa de uma dona que era professora de Biologia, gente boa ela, me ofereceu almoço e tudo. Eu só estava lá para pintar as paredes, mas conversou comigo e não interrompeu meu trabalho, nem o dos meus companheiros, confiou em nós e passou a falar sobre as coisas que sabia e questionar sobre as que nem tinha ideia, como pintar paredes por exemplo. Lá na casa dela eu aprendi esse negócio de fenótipo, genótipo e percepção, achei que nunca fosse usar, mas cá estou eu, falando sobre isso, cercado de gente que não está nem aí pro que eu acho. Eles apenas me olham, fazem cara de nojo, respiram contra o vento, e se mandam pro fundo do ônibus.

Talvez acreditem que eu não mereça estar no mesmo transporte que eles, pois não paguei essa passagem e também não estou indo ao trabalho, só estou ocupando um lugar. É foda... Eu pedi mesmo, pedi pra entrar pela porta de trás e me sentei no canto da janela, assim vou olhando o caminho até o centro da cidade e não puxo papo com ninguém. Apenas observo suas expressões. Sou um cara velho, já disse isso. Não me importa mais passar boa impressão pra ninguém. A surra que levei essa madrugada foi forte. Acredito que meus ferimentos e a sujeira das minhas roupas estejam incomodando esse pessoal "bem sucedido" aqui. Não são nem sete horas da manhã e esse ônibus já está lotado, tem uns caras bem vestidos se achando muito importantes por fazer dinheiro pra outro. Eu não me submeto a isso e acho graça nos homens e mulheres tão fracassados quanto eu, metendo o louco só pelo motivo de eu não estar cheirando bem, dentro do ônibus deles. Façam-me o favor! Vocês levantaram cedo, completamente derrotados para estar nessa lata velha, e com certeza chegarão tarde ao abatedouro de sonhos, ou firma, ou empresa, ou o caralho que vocês queiram chamar, o lugar que suga 16 horas do seu dia, e paga mal e porcamente, por somente 8. Somos todos fracassados nesse percurso.

Entrei numa briga? Sim. As ruas são cheias de armadilhas, e é preciso se defender. É como sua vida no escritório sujo que tanto glorifica, ou a loja maldita em que trabalha,e rouba também seus feriados e finais de semana. Dá pra contar pouco com a ajuda de um pobre diabo, mas na maioria do tempo é preciso de desviar do mijo do cachorro, do lixo que jogam perto de você, do bêbado desgraçado que tenta perturbar a única hora de paz que um homem pode ter que é o momento de dormir: Simplesmente morrer algumas horas e depois voltar. Aí não tem jeito, quando tentam me roubar isso, é porrada mesmo. Tá vendo meu olho, né? Está te assustando tamanho o inchaço. Deixa eu explicar, levei um soco no supercílio. Sim, essa pele fina embaixo da sobrancelha. Isso é sensível a qualquer parada, corta fácil. Pois bem, foi um soco e logo ficou do tamanho de um limão. Essa coisa sangra, e não tem sal, não tem bicarbonato, mertiolate, povidona, porra nenhuma, que faça estancar. Eu revidei, caí do chão e ralei a cara mais ainda. Machuquei joelho, costas, canela. Fodi até as churréias. É, é essa parte aqui que junta os dedos às mãos. Tá tudo desgraçado. Corpo, mente, vícios, palavras, ideologia...

Acho que um soco igual ao que eu levei pode deixar um sujeito completamente cego. Eu fiquei um pouco, e ainda estou enxergando mal. Golpes assim reduzem a capacidade do nego. Cambaleei, bati no vento e ainda ouvi risadas e xingamentos. Logo, pensei comigo "O fracasso de todos esses anos virou homem, cresceu e veio tirar uma com a minha cara. Vou deixar bater..." Não doeu tanto quanto o jejum do meu time até 77, era uma época dificil. Pessoas como você não ligam pra isso, mas é a única alegria que eu tenho. Sabe, em 1976 eu estive no Rio com uns amigos, pra falar a verdade nem sei como chegamos lá. Invadimos a cidade, o campo, tudo. Os cariocas ficaram bestas, era maloqueiro branco, preto, japonês, rico e miserável, tudo junto, tudo por um time só, todos com um desejo só. Não importava se o outro tava devendo, fedido, fodido, machucado... Era só alegria, cerveja, futebol, coisas simples que não excluíam nada de ninguém, só aproximava aquela corja de desgraçados.

Em 2012 trabalhei com um judeu maluco Santista e um gordo filho da puta São Paulino. Meu time na Libertadores e a velha piada maldita. Na final, eles queriam distribuir camisa do Boca pra todo mundo, me falaram que eu seria como um São Caetano, vice na Liberta e motivo de chacota pelos rivais pra sempre. Isso dava raiva. Já era muita humilhação ter que enriquecer gente assim, e ouvir que a única coisa que me trazia um pouco de alegria não daria certo, dava vontade de estrangular cada um deles. Mas ganhamos, era 04 de julho, e eu nem dormi. Fui pro serviço com a mesma camisa que estou hoje, a velha surradinha que ganhei do meu filho em 2000, ano do primeiro mundial. Foda-se, se não gosta do meu time, é parte da minha vida, e como já disse, essa sua empáfia não pode tirar isso de mim. Mesmo que as listras brancas da minha camisa estejam marrons e o Batavo central completamente podre, nada vai apagar isso de mim. Pois bem, cheguei no estoque gritando, eu era o campeão da América! Os chefes nem ligaram, continuavam ricos e eu só mais um empregado atrasado. Mesmo assim, aquele momento eles não descontariam do meu salário ridículo. Tinham o poder de me mandar embora, mas não de anular a noite anterior e os dois gols que calaram os sujeitos que preferem a morte a admitir que meu time é foda. Mandei tudo às favas, não me submeteria mais a porra nenhuma. Depois de abandonar aquela merda toda, fui campeão do mundo. Minha rebeldia trouxe bons momentos, minha filha... Eu sou só mais um, e embora você tenha pena de mim, não sou um coitado. Pelo menos não me sinto um.

Outra mulher saiu de perto de mim agora. Eu não tenho mulher, não mais. Talvez o soco e os ferimentos não doessem tanto, se eu tivesse voltado pra casa, e uma boa alma que estivesse a me esperar -  podia ser irmã, mãe, esposa, filha, não importa - cuidasse de mim. As mulheres tendem a ser mais cuidadosas desde sempre. Acho bonito sentir alguém que se preocupa com suas feridas, tanto internas quanto externas. Não tenho isso faz tempo... Não fui feito pra receber cuidados. Afasto-as de mim. Por isso ando desse jeito, com roupas sujas e exalando suor. Aquela senhora toda arrumada com uma bolsa falsa da Calvin Klein - eu sei que é falsa pois eu mesmo já vendi delas nas ruas de São Paulo - deve ter se incomodado com a merda das bactérias que vivem nos meus pés. Existem também nos pés bem feitos da loira cinquentona que ainda anda de ônibus, mas ela tem um banheiro pra lavá-los e uma pedicure para desencravá-los. Já no meu caso, as bactérias vão comendo a pele, bebendo o suor e defecando a cada instante. Não tem chuveiro quente e sabonete bom nas ruas. No máximo, o cara do posto de gasolina me deixa aproveitar a ducha. E é esse o resultado: Bosta de seres que nem são vivos exalando podridão de um cara, que também não existe, espantando coroas classudas com suas grifes pirateadas. As rainhas dos transportes coletivos, na mesma merda que eu, só que de banho tomado.

Meu supercílio cortado, minha roupa suja, meu tênis fedendo, minha mochila que atrapalha, meu cobertor de flanela de mendigo... Tudo enoja esses caras. Acontece que no posto de saúde do Jardim Brasil, eu só sou atendido se entrar na emergência, em noite de plantão, com uma faca cravada no cu. Não há onde lavar minhas roupas, muito menos um lugar privado para me vestir e me arrumar como mandam as regras de boa imagem. Eu não tenho patrão pra impressionar, eu sou só mais um de olho no caminho e evitando papo.

Antigamente não fazia esse caminho, era pela Paissandú direto e já chegava na Praça, pode ser também que eu pegasse outro busão pra vir pra cá. Minha memória é fraca. Gosto dessa pichação, essa aí, aqui na Brigadeiro Tobias, do lado do motorista, nessa obra que nunca acaba "Quantos pobres são necessários para fazer um rato rico?" Você não lê essas coisas , né? Lê esse Grey aí, já vi muitas nas ruas com ele. Deve ser bom... Não olham nem de lado, atenção toda voltada para a história desse homem. Sabe, a mensagem do maloqueiro que fez isso também é boa... Acho que deveria ouvir, sem essa marra toda que te fez levantar o mais rápido possível, sem medo de cair na descida em curva do mercado do Baiano.

Estamos quase chegando na Praça do Correio, pode explicar aí pro "Amor" do seu celular, que o cara mal cheiroso do seu lado não te assaltou e nem falou nada que te ofendesse. Explique também que só estou vestido de fracasso, não ofereço perigo à ninguém. Olha, já trabalhei perto do ponto final desse ônibus. Era uma loja de chapéus, no Largo do Paissandú. Uma vez atendi uma mocinha como você, toda apaixonada pra comprar um chapéu estiloso pro namorado. Ofereci o melhor, brinquei com o tamanho da cabeça do cara que seria presenteado com a do meu amigo Paraíba que dividia as 08 horas infinitas do dia comigo. Ela comprou, elogiou o atendimento e se foi. Não sei se o namoro ainda persiste, mas era assim como você, além de bela, toda insegura e cheia normalidade. Me parecia chata só no jeito de falar e caminhar.

É, me dei ao luxo de também fazer pré julgamentos a seu respeito. O ônibus dos pobres que enriquecem ratos chegou ao ponto final. Aqui eu me despeço, vou procurar outro lugar pra desistir de alguma coisa e ser julgado por outra turma de miseráveis. Não tenha preocupação em se desculpar ou mudar sua ideia sobre mim. Afinal, eu sou só mais um cara comum, sentado no canto, de olho no caminho e evitando papo.

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