quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

AS PERGUNTAS QUE MAIS ASSOMBRAVAM SEUS SONHOS, E O FAZIAM SUAR FRIO, COMO SE O PRÓPRIO DEMÔNIO VIESSE LHE COBRAR AS DÍVIDAS DAS VIDAS QUE CESSARA, ERAM: QUEM VAI ASSUMIR A MAIOR DISTRIBUIÇÃO DE DROGAS JÁ VISTA? QUEM IREMOS CULPAR? O QUE ACONTECERÁ QUANDO TODOS DESCOBRIREM A VERDADE?

E naquele dia a notícia foi dada: O principal suspeito estava morto, uma vértebra quebrada em um escorregão no banheiro. Morte besta. Sete anos e meio de investigação jogados fora! O suposto maior traficante da Costa Leste estava morto. Teria sua morte sido encomendada? E quem teria feito isso? Um concorrente? Talvez, pouco provável... sua vida criminosa não passava de história inventada, esse homem nunca foi envolvido com nada ilícito. Preocupava-se apenas com as flores e os vasos que vendia em sua loja. Por azar, tornou-se um suspeito sem crime. Era um sujeito comum, que teve nessa desgraça, o maior momento de sua história, até então, totalmente insignificante.

O acontecido foi arquitetado pelo Investigador Johnson, o verdadeiro criminoso, a pessoa que realmente comandava a Costa Leste... e mais 3 países. Sua distribuição era simples, porém, super eficaz. Ninguém suspeitava de seus métodos para enriquecer e manipular atos. Johnson era um ser sem escrúpulos, não media esforços para atingir seus objetivos. Construiu um império grandioso por anos. Vidas foram tiradas para manter sigilo e almas compradas para garantir fidelidade, e agora, uma morte ridícula pode acabar com todo seu disfarce. O Sr. Armander está morto, e o sabonete é o assassino, ou talvez um pequeno descuido... nunca saberemos.

O pobre vendedor de flores perdeu a vida em uma das artimanhas do Investigador, que há muito tempo se preocupava com quem poderia herdar seu poderio gigantesco fruto de inúmeros e ardilosos crimes. Havia diversas mortes impressas nas mãos. Seu jogo de interesses parecia uma partida interminável de War, cada participante daquela trama possuía um objetivo obscuro, ninguém se fazia de poucos amigos, todos estavam sedentos por poder e criavam suas próprias regras. Obedeciam Johnson enquanto lhes era favorável, e ele sabia que estava num ninho de perigosas najas, todas obscenamente venenosas. Confiar não era um verbo conjugado naquele meio. Ao mesmo tempo em que era tido como rei, também poderia ser facilmente vendido com um reles escravo. As perguntas que mais assombravam seus sonhos, e o faziam suar frio, como se o próprio demônio viesse lhe cobrar as dívidas das vidas que cessara, eram: Quem vai assumir a maior distribuição de drogas já vista? Quem iremos culpar? O que acontecerá quando todos descobrirem a verdade?

O medo, aliás, a paranoia e a mania de perseguição do Investigador tinham nascido em um tempo distante. Na época em que começou seus pequenos furtos e suas fugas para se drogar. Eram noites recheadas alucinações, que anulavam uma família falida. Ele era na verdade um jovem com graves problemas mentais. Apresentava níveis de psicopatia. Desapercebidos por seus pais, que sempre foram ausentes de sua história, para eles pouco importava a saúde mental do rapaz. Havia comida na mesa e era isso que bastava.

Tendo em mãos tantas mortes e um Império construído na base dos crimes mais sórdidos e cruéis de que a humanidade é capaz, Johnson começou a lembrar-se do dia em que ele fugia de um policial.  Jovem, e aparentemente saudável, deveria ser um atleta quando estudava, mas preferia concentrar-se em seus planos de enriquecimento para abandonar a miséria que o cercava. Aproximava-se das pessoas por interesse, ficava enquanto tinha vantagens. E somente enquanto houvesse credibilidade e confiança. Assim ficava seguro para conseguir atingir suas metas. Para isso forçava sorrisos, não media esforços para manter uma postura cordial, misturava-se aos bons, recrutava gente da mesma laia, chantageava, subornava, comia, matava, salvava e escravizava. Dedicava suas horas de solidão para que montar o roteiro de seus atos, antes apenas vividos em seu imaginário, mas ali naquele devaneio com sua juventude, tinha acabado de se dar conta de até onde seus desejos haviam o levado. Ele sabia que não iria conseguir escapar, ainda com a lembrança do que viveu naquela noite, recordou-se que em seus bolsos tinha o suficiente para ficar uma noite na cadeia, um baseado e um isqueiro, se entregar ou ser capturado era sinônimo de fracasso, sentia que isso personificaria sua impotência, ao ser preso minimizaria toda a grandiosidade das torturas que cometeu para chegar ao posto que ocupava. Agora seus bolsos eram de grifes famosas, além de medalhas e respeito, carregavam também muitos nomes, muitos conchavos e muito medo. Ele não construiu um Império para os outros, a fortaleza do crime pertencia somente a ele, por isso se tornou o investigador de suas próprias atrocidades. Nada, nem ninguém, poderia acabar com seu prestígio e sua imagem de autoridade máxima na polícia: O exemplo contra a indústria das drogas. O homem mais respeitado da instituição. O dono da Costa Leste. 

O Investigador Johnsson, como gosta de ser chamado, é conhecido por outro nome em seu verdadeiro "círculo". Ele é o Vulture. Cuida de suas próprias vítimas, gosta de ver seus "clientes" morrendo ao usar seus produtos. Há um boato que se espalha de que ele não tem coração, é incapacitado de demonstrar afeto por alguém. Fez questão de viciar seu filho, seu único filho, só para testar a eficácia de sua mercadoria. Engrandecer era palavra de ordem. Familiares são completamente descartáveis. A família que tem é de faixada, assim como toda a história de sua vida. Entrar para a polícia era parte de seus planos. Ele tornou-se o chefe de investigação de seus próprios crimes. Trabalha melhor do que toda a equipe dos serviços especiais Americano, manipulando pistas e suspeitos. Sempre que os casos avançam rápido demais, ele planeja e executa algo pior, assim consegue afastar qualquer possibilidade de conclusão. 

Certa vez realizaria a entrega de drogas de trem numa cidade distante, cinco policiais acompanhavam 60Kg de cocaína em sacos de café. Tudo corria bem, até que seus parceiros suspeitaram de algo e resolveram conferir a mercadoria que estavam levando. Johnson não poderia deixar que descobrissem a fonte de sua riqueza, ele era o mandante, o fornecedor e o cobrador de toda aquela farinha. Num pensamento rápido, armou uma maneira de eliminar os colegas de profissão e seguir com sua posição de chefe do tráfico. Ele cobraria pesadamente quem ousasse anular sua fonte de poder. Avançou mais casas no tabuleiro, dopou o maquinista, desviou o caminho, o trem descarrilou, os cinco morreram juntamente com os outros passageiros e a droga sumiu. Mortes acidentais acontecem a todo instante. O recado estava explícito: Ninguém atrapalha os planos de Johnson, nem mesmo seus companheiros de polícia.

Todos esses sacrifícios seriam em vão se não tivesse a quem culpar. Era preciso concluir o caso. A distribuição continuaria, mas quem assumiria seus negócios? Sua carreira na polícia também estava em risco pois, se descobrirem que o Sr. Armander nunca fora um traficante, e que todos esses anos de investigação serviram para nada menos que perda de tempo para uma equipe, e ganho de tempo para o dono do maior Império de drogas da região, não acreditariam mais nele. E sua vida policial teria um fim desastroso:

 - O que faremos? - Perguntou a Conrad, seu braço direito.

 - Acho melhor pararmos, já temos muito dinheiro, podemos simplesmente fugir e desaparecer, nunca seremos pegos!

 - Você quer abandonar um império? Abandonar tudo, largar nas mãos de amadores uma distribuição feita com tamanha perfeição durante anos? Um esquema milionário e perfeito? É ISSO QUE VOCÊ QUER? - Gritou Vulture.

- Não foi o que eu quis dizer Sr., eu estou dizendo que, se formos pegos, e apenas se, tudo será em vão realmente. Se fugirmos ainda teremos os lucros, podemos tirar proveito de tudo que fizemos.

- Você está certo, desculpe. – Disse Vulture coçando a cabeça em gestos de pura preocupação.

Conrad sorriu, ele nunca tinha sido ouvido. Sempre foi um excelente assassino, cumpria com seus objetivos com maestria, cuidava sozinho de metade dos distribuidores. Era ótimo pai, ótimo filho, sempre ajudando sua família, mas caiu, como todas as suas vítimas, morto e descartável. Uma bala no meio dos olhos, não deu tempo nem de piscar. Esse era o jeito Vulture de solucionar possíveis problemas. Conrad sabia demais, e apesar de ser o braço direito do chefe, não podia, e nem tinha gabarito para assumir todo o Império sozinho.

Agora restava apenas desespero para o Investigador Johnson, ou Vulture, suas duas personalidades estavam perturbadas. A loucura comia seu cérebro, como os cupins vão se alimentando de madeira. Fugindo, correndo, suando, desesperado e sem saber o que fazer. Chegou em casa, trancou-se no banheiro e novamente começou a delirar com a perseguição que sofrera quando jovem. Estava num beco sem saída encostado na parede, sua visão era do mesmo policial que o perseguia nos tempos de seus crimes amadores.
Podia ouvir novamente suas palavras:

- Nem ao menos sacarei a arma, não quero assustá-lo ainda mais. Acho que não o levarei preso, seus olhos estão vermelhos e cheios de lágrimas. Acalme-se rapaz, só quero conversar!

Mesmo anacronicamente, Johnson começou a gritar, como se de fato estivesse revivendo aquele momento:

 - AFASTE-SE DE MIM! EU NÃO QUERO SER PRESO!

 Ainda sentia-se ouvindo a voz do oficial:

- Fique calmo, eu só quero... - No ápice de sua fúria, começou a chorar e soluçar. Balançava o corpo e quebrava objetos. Lembrou-se de como conseguiu seu nome: Quando novo, pegou um cano de ferro que estava no chão e bateu na cabeça do policial, cinco vezes. Chorando e soluçando, via suas mãos sujas de sangue. Reviu o momento em que retirou o distintivo do cadáver. Estava escrito "Charles Johnson", seu novo nome. Levou o corpo para o deserto e deixou de presente para os abutres. Lembrava-se de como adorou vê-los comendo os olhos de sua vítima. Daí então seu apelido, Vulture. Pegou roupas, documentos e a arma, foi atrás de um amigo que falsificava documentos e desde então, manteve esse personagem para quando precisasse, e precisou.

Quando já tinha uma distribuição massiva e a polícia estava atrapalhando, foi para a delegacia e se apresentou como especialista em entorpecentes, um currículo invejável de investigações e apreensões. Investigador Charles Johnson, intimamente chamado de CJ e instantaneamente amado por todos.Um disfarce perfeito e bem elaborado, mantendo seus principais inimigos o mais próximo possível, orquestrando as investigações em seu benefício.

De volta a realidade que o atormentava, passou a se perguntar “Seria o certo mesmo deixar tudo para trás? ” Fugir para um país da América latina, onde nunca o encontrariam era uma boa opção. A quantidade de dinheiro que tem acumulado seria suficiente para 5 gerações viverem sem trabalhar. Mas ele precisava de um final, seu império tem que acabar de forma épica e dramática. Ele quer um fim, não um substituto.

Desenhou seu planejamento, todo aquele Império estaria pronto para um Grand Finale. Começa com a polícia, convoca uma reunião com todos os envolvidos, uma tocaia enorme e bem arquitetada para acabar de vez com essa distribuição. No mesmo dia, uma reunião com seus distribuidores, marcando a última entrega. É o fim de seus atos maléficos, mas ninguém contava com sua mente insana, imaginavam que anunciaria o substituto, o novo padrinho, um novo homem a quem deveriam respeitar.

O plano era macabro. Ele queria acabar com suas próprias mãos com todos os seus companheiros de crime, queria estar na sua emboscada, comandando a equipe de policiais que acabariam com o império. Queria terminar como um herói e assim fez. Invadiu o galpão onde acontecia a reunião, e deu a ordem:

- ATIREM!!! MATEM ESSES ASSASSINOS!

Era como se todos os policiais realizassem seus maiores sonhos de anos e anos de investigações. Matar aqueles que tanto eles perseguiram, durante tanto tempo, os maiores traficantes da história estavam sob a mira de suas armas, e assim fizeram, obedeceram a ordem do Investigador Johnson. O homem mais íntegro da instituição. O chefe do maior império de narcóticos. Executados a sangue frio pela polícia, a matéria já podia ser vista nos jornais: Fim! As drogas não serão mais distribuídas, acabou o reino de Vulture!

Os policiais comemoram e gritam o nome de Johnson, mas cadê ele? Todos se preocupam e o procuram, mas sem êxito. No meio de tantos mortos, o dia da glória para a investigação, a solução do caso, era estranho não ter a presença e euforia do Investigador. Até que o encontram no chão, com um tiro na nuca, descartando a possibilidade de suicídio. Então, o que aconteceu? Após alguns dias, a perícia constatou que foi um acidente. Um policial novato, ao atender o comando de Johnson, atirou em tua nuca. Ele morreu na hora, como um herói, assim como planejou. Aqueles que poderiam herdar seus negócios estavam mortos e aqueles que poderiam desmentir sua vida... mortos."



Dos porres que tomo diária e insanamente com Erik Lucas



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