quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

UMA PRECE PARA ENLOUQUECER EM PAZ

Adoecer sem a presença de um vírus talvez seja uma das piores maneiras de morrer. Se perder aos poucos, travar batalhas épicas com a ansiedade e desacreditar do mundo. Tudo isso vindo de uma só vez é o soco que leva ao nocaute. Não há saída, a salvação é bater três vezes na lona e suplicar ajuda, repousar o rosto inchado na bolsa de água quente e entregar o cinturão. Esgotam-se todas as forças e a cura não reside no isolamento. É extremamente difícil aceitar essa circunstância, é mais dificil ainda ter ousadia para pedir colo, ter a audácia de mendigar uma adoção, ainda que temporária, porém, de necessidade urgente para alcançar algum conforto.

Esses dias fui a um bar, e a moça da bilheteria me surpreendeu com um "Ué, está sozinha hoje?" , pois bem, eu estava. Péssima coisa a se perguntar pra mim, que sou um poço de complexos. Encontraria alguns amigos depois, mas a questão dela foi um pouco mais fundo do que deveria. Estava sozinha durante todo o trajeto, sem ter quem desse conta de quão perdida a minha mente se encontrava, ou que se preocupasse se eu estava no caminho correto, ou que questionasse ansiosamente pela hora de minha chegada. A máscara de deusa sempre me coube perfeitamente. Batom matte, camiseta dos Stones, juba solta encostando na cintura e ninguém desconfiaria de nada. Até estremecer com uma simples pergunta - sempre as malditas perguntas simples- que desmonta os meus melhores disfarces.


Enfim, bebi e dancei com algumas amigas e encontrei Strutter, que estava linda, e bêbada como sempre. Primeira vez em anos, que não fomos nós duas o centro da festa, que não caí nos encantos da deusa, que me vi só a noite inteira. O que eu queria? Me fiz ausente por longos períodos, mas sem que ela desocupasse o topo de minhas prioridades. Acreditei que não a tirando do meu pódio, também permaneceria entre seu top 10, quem sabe eu ainda fizesse parte de suas companhias favoritas, mas não naquele dia? O fato é que todo aquele ambiente não me seduzia mais, embora ecoasse minhas canções favoritas e estivesse repleto de outras pessoas com quem se alegrar. Tudo é um ciclo, quem sabe seja a hora de romper com as vozes antigas e passar a se encantar com novos e mais graves sussurros?


Resolvi parar, corto o que me faz mal pela raiz, é dificil pra caralho, eu sofro como um diabo, se é que Satã um dia sofreu por algo ou alguém. Acontece que eu tento não pensar e relevar tudo que me entristece, mas a habilidade de não se importar, eu não consegui desenvolver e, generalizando, creio que todos os desapegados sejam verdadeiros mentirosos. A indiferença mata. É uma vadia de sangue frio, que faz cortes hiper sangrentos enquanto gargalha escandalosamente.


Houve uma época em que eu não me importava realmente, andar sozinha pra cima e pra baixo não era um problema pra mim. Agora sinto que o problema não é estar só, e sim, sentir-se só. Da mesma maneira que não me importo em ser ridícula aos olhos dos outros, mas me sentir ridícula é uma das piores sensações que já vivenciei. Ser comum e se sentir comum me enoja, preciso enlouquecer e me falta apoio para seguir com minha insanidade. Onde foi parar a inspiração de minhas loucuras? Em qualquer canto que esteja, descanse em paz, mas, por favor, ressuscite no terceiro dia e mostre-me que não é preciso duvidar da fé.


Em alguns dias, minha maior vontade é de sumir, só pra ver quem sente falta. Drama inválido, há coisas mais importantes para fazer. Então, grito de saudades, invoco demônios, faço um sábado à noite no final do expediente de terça-feira. E não sei de onde tiro essa coragem, quando os últimos acontecimentos me dão incentivo apenas para desistir de tudo.


Desde outubro do ano passado me abstraí de transas corriqueiras, não fossem minhas lembranças e meus sonhos lascivos, diria que agora sou pura e casta. De vez em quando acredito que algumas de minhas neuras sejam apenas carência, e quase, mas um quase milimétrico, caio novamente no conto das mensagens que chegam na madrugada. É outra força que vem pra me salvar, melhor ser virgem de novo, do que se prestar a fodas ruins, bebidas fracas, noites péssimas, depressão pós coito e conversas sem crise de riso. As piores coisas que existem. Só é mais triste não ter com quem se excitar, e piora nos dias em que nem eu me provoco. Preguiça impera, nem meu corpo me anima. Paciência... A gente aprende a viver com isso e chuta o balde quando ele se enche de merda. Paciência.


Mesmo nas mesas sem álcool e nas amizades e olhares não sexuais, pude esquecer por horas tudo que estava me entristecendo. E isso foi bom, uma mesa repleta de amigos vale mais que um coquetel de comprimidos contra doenças praticamente incuráveis e distúrbios mentais inventados pela moda. Perder o medo da fala e vomitar o que embrulha meu estômago: A melhor coisa, coisa mais difícil e necessária. Tinha me esquecido de como é bom ficar de boa, e que assim seja. Amém.

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