quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DA NECESSIDADE DE AMIZADES TERAPÊUTICAS NO FINAL DA TARDE

Estudos comprovam que casais que discutem a relação, vivem mais felizes e juntos por mais tempo. O causo desse par não é muito diferente, tirando o fato de que para eles pouco importava viver juntos por muito tempo, estavam juntos no mesmo quarto durante algumas horas e aquilo era o que bastava na ocasião. Seus debates envolviam assuntos políticos, problemas no trabalho, sonhos futurísticos, episódios perdidos de Chaves, filmes de super heróis e as novas animações do Cartoon Network. Nem sempre ouviam as mesmas músicas, mas compartilhavam o apreço por algumas canções marcantes do rock clássico.


A trilha daquela tarde era feita de Creedence, o cinzeiro estava cheio, entretanto, os copos rasgados de tão vazios. Ele não fumava, muito menos bebia tanto quanto a moça. Isso não era um problema. Ambos falavam mais que os ambulantes da balsa que faz a travessia de turistas e nativos de Porto Seguro a Arraial D'ajuda, ou pra quem frequenta o centro de São Paulo, falavam mais que os carinhas que vendem até a mãe na entrada e na saída do Terminal Bandeira. O rapaz, desde o começo instigava a mulher a falar mais, desde fantasias sexuais até aos dias difíceis em casa, ou besteiras televisivas mesmo.  Gostava de falar sempre, mas sua especialidade era puxar assunto pós coito, conversar nus, mas, libertos do tesão, era um jeito de excluir as mentiras dos assuntos:

- Esse motel é caro, né?

No início ela não curtia se abrir muito, evitava que adquirissem muita intimidade. Convicção tola, que logo largou de mão.Viviam algo íntimo, não havia mais o por quê dos não me toques. Estava adestrada e já começava a achar estranho aqueles que pouco falavam da vida ou que quase nunca riam de suas próprias desgraças :

- É. Talvez por ser um hotel com períodos e não um motel. Mas não importa muito, é o mais discreto desses lados, além de ser mais bonito também. 

Ela serviu mais um copo descartável com uma catuaba ridiculamente podre, aliás isso pode ser um tanto quanto redundante, em nenhum lugar requintado serviriam catuaba, menos ainda num copo plástico degraçado. Entretanto, para esse par, a bebida e os copos eram levados na mochila, os encontros nada românticos eram marcados em poucas mensagens. Acreditavam que mesa de bar, drinques e passeios caros, eram nada mais que perda de tempo. Podiam resumir tudo em beber, conversar e trepar em uma visita só, afinal, nisso que se resumiam as relações. Para eles, todas as outras coisas eram de uma tremenda falta de necessidade.

Ele continuou o papo sobre o hotel/motel caro:

- Mesmo assim. Estamos nos primeiros quartos, setenta e cinco reais é muito dinheiro pra ficar só quatro horas. Lá na vila isso é um pernoite.

- Por que tá reclamando? Eu que paguei. E também, não é um lugar podre. O do outro lado da avenida, os quartos são bem na frente mesmo, tem uma porta do lado da mesa da recepcionista. E nem tem ar condicionado, é um horror. Entrada pra pen drive, também não tem. A luz falha, ou fica tudo escuro, ou fica tudo aceso, o banheiro é muito pequeno, é tudo horrível.

Eles caíram na gargalhada e ele bancando o indignado começou um discurso de defesa:

- MEU DEUS! Eu também já paguei, não é só a senhora que paga. E pelo visto já foi em vários motéis por aqui, né?

Enquanto acendia outro cigarro a moça retrucou:

- Não. Foram só dois. Esse aqui e o podre em cima da igreja. Gostei mais desse, pilares em volta da cama, banheiro grande. Sabe que tenho coisas com banheiros né? O banheiro da minha casa é minúsculo, e não importa aonde eu vá, sempre reparo nos banheiros. Acredito que a origem dessa tara tenha nascido daí. Pois bem. Só acho que devemos procurar outro lugar, já até  nos conhecem. A moça lá de baixo nem pergunta o que queremos "'Período de quatro horas, né? Documento, por favor. Vocês podem acertar comigo agora? Débito ou crédito?" eu fico com vergonha, e também, o meu dinheiro está acabando. Setenta e cinco golpes toda vez é muita grana. Fora que nem usamos as quatro horas... Anyway.

- E quando você voltou a fumar? Na vez passada não estava fumando tanto. Estranho. Aconteceu alguma coisa?

Saíam apenas na semana de pagamento, ou quando sobrava algum troco de todas as contas pagas. Não tinham a vida fácil e encontros planejados. Usavam os quartos de motel como terapia. Era uma espécie de happy hour. Transar toda semana era coisa de casal, eles eram apenas amigos. Assim como amigos não sexuais usam a mesa de bar pra desabafar, eles usavam os corpos. E isso funcionava bem.

- Nada que deva te preocupar, mon chér. Saí com uma amiga semana passada, e ela fuma, como não queria ir pra área de fumantes sozinha, a acompanhei. O maço ficou na minha bolsa, e sobraram apenas cinco. Dois, fumei de manhã e três agora. Esse é o último. Depois disso volto a ser saudável. Pobre e saudável.

- É, então seremos dois. Podemos também nos juntar e assim viveremos de amor.

Algumas vezes soltavam suas ironias a respeito de amar alguém. Vivam questionando relacionamentos passados, sempre que a tecla do amor era acionada as conversas pós coito ficavam ainda mais com cara de sessão psicanalítica. Com uma expressão bem indiferente encarou o amigo, descansou o cigarro no cinzeiro, tomou um gole da catuaba chocha, desamarrou e amarrou novamente o cabelo e disse fingindo pouca importância:

- Amor? Que amor? O amor não existe.

Ele riu ironicamente e respondeu:

- Esse discurso de gorda, feia e depressiva. Para com isso! Nem aquelas mulheres que trabalham comigo falam assim, mesmo sendo completamente judiadas, elas acreditam que o amor é importante. Você não precisa falar assim. Não sei o motivo disso. E também não me interessa.

- Você tá me chamando de gorda? É isso? Eu to pelada com você, e está me chamando de baleia. De Free Willy! De Shamoo. VOCÊ ME CHAMOU DE SHAMOO? 

- Você me ouviu? Eu não te chamei de gorda. Te chamei de amarga. Você não é gorda, mas deveria ir pra academia. Ia ficar legal, tem uns peitão, coxa grossa e bunda grande. Afina mais a cintura e nossa! Sensacional! Mas não é esse o ponto, Willyzinha. O ponto é que não há necessidade de ser assim. Eu estava brincando. 

- Ridículo. O senhor é ridículo, viado. Talvez, e ouça bem, apenas talvez, esteja certo. Mas não consigo acreditar... E bem, não importa. O que me incomoda mesmo é o fato de você arrancar minha roupa e depois me chamar de gorda depressiva. Não estou mais falando com você.

--SILÊNCIO  ABSOLUTO. Olhares vagos. Ela apaga o último cigarro e vira o resto de catuaba na garganta. Já não se preocupava com os copos. Virou de lado, fingindo que ia dormir, mais por birra do que por cansaço. --

Era sempre assim, depois de um papo que poderia ganhar muita seriedade, permaneciam quietos. Ele interrompeu o clima sério, voltando a falar do hotel/motel caro.

- Também gosto desses pilares em volta da cama. O chuveiro é muito bom também. Eu não ligo de já conhecerem a gente por aqui, mas devem pensar que somos amantes. Chegamos em carros separados, vai cada um pra um canto... Imagina se elas descobrem as cachaças na sua bolsa, sem contar quando tem coleira também. Você nem tá me ouvindo, né? Tá fazendo birra. 

A bela continuou fingindo estar adormecida, até "despertar" sendo puxada pelo rabo de cavalo, levada até a cintura de seu acompanhante. A toalha que envolvia seu corpo, desprendeu-se, deixando-a novamente nua diante de seu amigo. Os olhares se penetraram novamente :

- Eu te odeio! - Disse ao rapaz que ainda segurava fortemente seus cabelos, sem desviar os olhos do rosto dela e muito menos de suas curvas. 

- Como pode, você transar com alguém que você odeia?  Não acredito nisso! Está blefando. A verdade é que você não passa de uma safada, isso sim. Que? Acaba de dizer que me odeia, mas está me chupando de novo. É isso, mesmo? Não vale os tapas que leva na cara, e acho que vai levar outros pra parar com isso. 

Ela voltou seus olhos para os dele e sorriram sarcasticamente. Tudo estava resolvido. Entraram em acordo as duas partes do caso. Os dois não valiam os tapas que se davam, porém, se divertiam bem assim. Não era necessário pesquisa nenhuma para comprovar que, bem, de certo modo, os estudos estavam corretos. Discutiram a relação e permaneceram mais tempo juntos, fazendo aquilo que realmente importava nas horas que lhe restavam. 

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