quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

REFLEXÕES SOBRE HEMATOMAS E CASAIS DE METRÔ.

UiHá muitas coisas sobre as quais eu finjo entender bem e saio falando com propriedade, como se tivesse especialização de reconhecimento internacional pra sair propagando ideias alheias. Comento de filmes que assisti pela metade, ou de livros que só li o prólogo e ouvi comentários. Mas há uma coisa sobre a qual eu evito falar e detesto mais ainda presenciar. O tal do amor.

Não sei o que acontece, eu não consigo verbalizar esse sentimento sem que pontas de raiva surjam em meus olhos. Matei o amor com um luminoso punhal, às cinco horas na avenida. Sigo a vida aguardando o terceiro dia, e com ele a ressurreição. São 24 anos aguardando.

Gosto de gritar o que já vi e senti, o amor não existe nas minhas bandas. Não tenho motivos para exalta-lo em meus causos. Sempre amei em via única, acho que amei exageradamente em via única, numa velocidade muito acima do permitido por lei, cantando pneu e embriagada. Isso é assustador para a outra parte, eu sei. Com o tempo fui desacreditando desse sentimento e sofrendo calada. Até ler sobre amor me causa náuseas, são linhas e linhas de coisas impossíveis, é como comer um prato de açúcar e beber água do mar. Quem tem coragem de fazer uma merda dessas? Eu não. Amantes vivem uma fantasia chata de perfeição entre fodas e sofrimento, eu não tenho tempo pra me identificar com isso. Ninguém vive assim.

Esses dias saí com um cara, que conheço há uns 2 ou 3 anos, essa relação já passou da indiferença ao ódio, e hoje está em linha reta. Ele é o tipo de homem que nunca apareceu na minha vida, aquele que dá bom dia, elogia cabelo, roupa, boca  - apesar de muita gente falar da minha boca como se fosse uma coisa de outro mundo, quando ela é apenas gigante, mas isso fica pra outra história -, pergunta como está o dia e almoça comigo sempre que pode. Eu gosto, mas acho estranho. Esse rapaz é um tipo que se vira muito bem sem mim, na época em que paramos de conversar ele estava namorando com uma guria meio perturbada e cheia de ciúmes de tudo e de todas. Tudo bem, cada um deve seguir sua vida . O que me deixou puta é que eu simplesmente fui apagada de tudo, não servia pra ser amiga, apenas pra dar uns beijos e dividir uns copos de vez em quando, pra sair sem a namorada saber ou pra ouvir as crises do relacionamento. Pro inferno! Guardei rancor enquanto pude, detesto ser lembrada apenas  para situações de meio termo. Mas como toda boa trouxa,  estou saindo com ele de novo e ouvindo elogios, marcando encontros em horário de trabalho e indo sempre no próximo metrô, porque fico trocando saliva em amassos na estação. Logo eu, que sempre detestei esses casais de transporte público. Aliás, logo eu que não gosto de nenhum casal. Todos me causam desconforto.

Acho que não sei ser um par normal, é difícil compartilhar meus problemas, abrir minha vida, andar de mão dadas e ter apelidos carinhosos. Acho tudo isso muito estranho. Não que eu não goste de carinho e de atenção. Sofro muito sem eles, mas não tenho o costume de ter alguém pensando em mim, e quando tenho, acho que é de brincadeira. É isso. Menosprezo casais, porque pra mim é tudo palhaçada. Um deve estar de sarro com o sentimento do outro, ou só nas minhas relações que não há recíproca? Desisto.

Hoje estava indo para o trabalho e parei em frente a uma banca de jornal, e nela tinha uma revista chamada Abusada. Aquelas de fotos pornográficas bem chulas. A capa era uma modelo bem arreganhada, com uma chamada assim "Masoquista. Só deixa entrar se bater." dei um sorriso de canto de boca, confesso. Talvez eu tenha me identificado. Não sei demonstrar amor sem transar. Não sei transar sem trocar uns tapas. Umas mordidas. Uns puxões de cabelo. Sem voltar pra casa com alguns hematomas. Eu sou masoquista por não saber falar de amor ou por gostar de apanhar?

Já me falaram que não é preciso apanhar no sexo para ser masoquista, que apenas amando você ganha o título. Bom, no domingo troquei o cara fofo por um ogro que já saí há uns tempos. Nossas conversas sempre são "me espera em tal lugar", a gente trepa e acabou. Algumas vezes isso me deixa mal, mas sexo é apenas sexo e nada mais que isso. A não ser que você queira que a foda seja mais alguma coisa. Diferentemente das outras transas, nessa os dois estavam possuídos pelo satanás, essa é a única explicação que pude encontrar. Apanhei tanto e levei tantas mordidas que estou com os roxos na bunda até hoje. Nem passei nada para que as marcas diminuíssem, sinto orgulho de ter ficado com alguns hematomas. É como quem sofre amando e fica com uma música, um perfume ou uma carta.

De certa forma, também só deixei entrar depois  que bateram, igual a moça da revista podrenga. Não há muito o que nos diferencia em fetiches. Todos são um pouco masoquistas, podres e loucos. Ainda bem. E isso não é amor. Ficar de casalzice no metrô também não é. E o que é essa porra que me incomoda tanto? Não suporto nem amiga apaixonada. Acho que é recalque. Um recalque freudiano e chato pra porra, como qualquer coisa relacionada a Freud que ninguém consegue explicar. Muito menos eu.

Um comentário:

  1. Belo texto, o que voce disse reflete bem o que penso, acredito que todo mundo tem um lado que adora sentir a dor, acho que a aventura de um sexo selvagem aumenta ainda mais o tesão e a sincronia do casal, o contado dos corpos é algo magico mesmo, entendo bem você acho conformo vamos aprendendo com relacionamento vemos que muitas vezes aquela coisa toda fofa é enjoativo, vc vive dando amor e muitas vezes não é correspondido, é dificil..muitas vezes uma noite de sexo masoquista vale muito mais

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