Certa vez eu conheci um cara. Conheci bêbada, completamente alcoolizada, numa noite ridícula de hard rock no extinto Inferno da Rua Augusta.
Era madrugada, a música estava mais alta que qualquer um dos outros sentidos, e provavelmente eu estava numa das minhas melhores, e mais vergonhosas versões, dançando num pole decadente e mexendo os quadris entre tantos outros ao som de pour some sugar on me... Música mais do que repetida nesse tipo de festa.
O cara estava lá, amigo de uma amiga, pagando bebidas e me vendo dançar e beber. Fazia poucas piadas, preferia os destilados às cervejas, mesmo assim não deixava de buscar os baldes de garrafas verdes pra dividir com o grupo inteiro. Ele permanecia calmo no meio das garotas que acompanhava, e apesar da barba na cara tinha tamanho, físico e olhar de um menino de uns 14 anos.
Não trocamos palavras naquela noite, mesmo assim, senti vontade de beijá-lo. Apenas porque ele me fitava como se eu fosse algo anormal, e de certa forma, eu gosto de causar esse tipo de coisa nas pessoas. Desci e o surpreendi com um beijo, sem pretensão de ter mais nada com isso. Beijei, roubei um gole de seu copo e fui ao banheiro. Não sou de muito papo nessas situações, e na minha cabeça aquilo acabaria ali mesmo. Tal como a descarga que levou parte do álcool ingerido pro esgoto.
O pequeno moço, apesar de demonstrar que gostava de estar comigo, era pouco transparente com seus demônios. Digo, eu não conseguia saber o que ele realmente queria de mim. Não conseguia me comportar como cadela, também não era carinhosa como uma namorada e nem tinha tanta intimidade pra conversar como uma amiga. E ele não me dava uma pista, um caminho simples pra saber como agir.
Existem coisas que nascem e morrem numa noite de Augusta, vocês sabem: colegas bêbados de banheiro, gente que troca ideia na fila, o papo interminável com a moça que elogia sua bunda no bar, e os amassos com o cara de roupas sérias e fachada de bom moço que frequentava o mesmo rolê.
Entre os finais de semana que saía comigo, ele também se encontrava com outra mulher. Mas com essa ele ia sozinho, e a locais mais apresentáveis do que os bares de rock do centro de São Paulo. Eu era solicitada para ajudar a encontrar um bom local para o encontro romântico.
Apesar de sempre estarmos juntos num clima de música, mulheres, cigarros e bebidas ser bem sugestivo, nada de mais acontecia entre nós. Eram beijos e palavras de carinho, tapas fracos, nada que enlouquecesse, tampouco incendiasse...
Enfim, ali na Penha perto da Tiquatira fica o Dunnas bar, ambientado por belas bailarinas de dança do ventre com decoração egípcia e música tranquila, fora a alegria e sedução que parecem energizar o ambiente. Ele sabia que eu amava aquele lugar e me perguntou se era um bom lugar para levar a moça séria com quem estava flertando.
Não posso dizer que a pergunta não me abalou, mas continuei a conversa bancando a indiferente. Ele insistiu "Tem algum motel lá perto?" e de verdade eu não sabia, respondi apenas que se ele queria bares e motéis próximos, deveria levá-la na Augusta mesmo. O rapaz admirador da minha dança e da minha falta de timidez riu da sugestão e afirmou que aquela garota não era do tipo que frequentava o nosso rolê, que o caso era diferente.
Então, pude concluir que não era amiga pra conversar sobre a vida. Não era a vadia que ele queria comer somente aos finais de semana. E muito menos a candidata à futura namorada.
Nunca quis o posto de deusa da vida de ninguém, porém, tinha consciência de que nossa relação era aquilo de estou feliz por estar com a menina que não tem vergonha de dançar no bar, e eu feliz por ter alguém pra beijar no meio do expediente.
Estaríamos quites, caso tivéssemos sido verdadeiros desde o início. No entanto era um vai, não vai. Cerveja morna na metade do copo que não dá pra jogar fora pra não desperdiçar e também que não é umas das coisas mais gostosas de beber. Não mata a sede.
Nossas vidas se separaram, o bom moço começou a namorar a boa moça que não servia para os motéis baratos e noites de open bar. Arranjou uma companheira que proíbia nossas conversas, me tirou de sua vida e eu segui meu baile. Continuei sozinha, bebendo e dançando à procura de qualquer coisa que divertisse. Carência minha, um dia eu explico.
O namoro acabou depois de alguns anos, e ele ressuscitou me tratando da mesma maneira de antes. Uma semi amizade morna com toques sem firmeza.
Agora eu já não frequentava a noite paulistana com frequência, e ele me conheceu sóbria. Sóbria na hora de almoço de um dia entediante de trabalho. A sobriedade chata do dia a dia. E mesmo aos beijos, na frente da empresa, aos olhos da secretária fofoqueira do chefe que pregava a moral e os bons costumes, nada em mim brotava... Talvez estivesse doente, ou apaixonada por outro, ou carente demais pra jogar limpo e dizer "eu não quero transar com você, mas ter sua atenção me faz bem". Talvez por não conseguir ler o que aquele cara realmente queria de mim eu não conseguisse ir adiante com aquele teatro. Enfim, situação de bosta que eu não sabia lidar.
Já havia entrado em fodas sem ter tesão, sem ter consideração e intenção de cativar. Porém, com esse tipo era diferente. Eu tinha preguiça e por preguiça não conseguia prestar atenção nele, muito menos no que ele sentia. Pensava mais em mim do que por os pingos nos is daqueles encontros.
Foi numa noite véspera de carnaval que a falta de tesão se confirmou. Éramos mais um casal no bar, desses casais que incomodam os outros com seus beijos escandalosos. Beijos falsos da minha parte, pois podia ser com ele, podia ser com qualquer outro. Não eram encontros especiais. Tapávamos buracos. E não havia nada de errado com o rapaz, coitado.
Às vezes penso que ele seria um bom namorado, era o tipo de cara que derramava elogios e mensagens fofas. Atencioso e educado, um sonho. E como todo sonho faltavam verdades em nossas palavras. É bom ter alguém pra chamar de mozi, porém, costumo acreditar mais no tesão do que no amor e mais nos xingamentos do que nos apelidos carinhosos.
Embora ele me tratasse bem, não era o tipo de cara que me provocava, de verdade ele pouco conversava comigo, pouco reclamava da vida ou do trabalho, também pouco demonstrava interesse em sexo. Os opostos não se atraem, os comportamentos parecidos, sim. Nós éramos diferentes.
Eu me contentava apenas em foder e ter com quem conversar. Sem status. Transar violentamente e dormir abraçados, rir de piadas idiotas e arrancar a roupa em qualquer lugar. Yin e yang. Já ele, eu não sei do que gostava.
Sem dúvidas essa convivência resultou na minha pior foda, pior por nunca ter acontecido, pior por não ter tido nem ao menos vontade de começar.
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