sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O DEMÔNIO SEMPRE ESTARÁ EM MIM OU EU SEMPRE ESTAREI NELE?

O inferno receberia uma grande festa, seria a noite para encantar todos os sujeitos que queimariam eternamente naquele lugar. A princípio estava muito animada, mas com a data se aproximando e sem saber como me portar no local, pensei em desistir das comemorações e sumir por um tempo. Assumir assim de maneira tão grandiosa o lado mais caótico da vida era tremendamente assustador. Mas de súbito, meu grande amigo, mestre e dono das maiores broncas surgiu. Lindo e enigmático, puto pela minha fraqueza depois de anos e anos guiando meus melhores passos. 
Então, olhando fundo nos meus olhos, Satanás disse:
- O que te incomoda tanto, garotinha? Tem algo podre aí dentro que está te atrapalhando? Hmmm, sinto daqui a  insegurança em sua respiração. Siga em frente, cometa seus pecados, desligue-se das moralidades e das companhias que a entediam. Assuma seu posto no inferno. Seja a rainha dos condenados.


 Para ele essa atuação era perfeita para a minha vida, ser a heroína dos desajustados, ter o controle de tudo e todos, agir como se nada me abalasse. O Demônio era isso, ele não tinha com o que se preocupar, eu tentava fugir, sempre tentei, mas não havia mais como hesitar. Ele sabia que eu entendia seus modos, pois éramos exatamente iguais.
Não havia condições psicológicas para me tornar a rainha dos condenados, era inadmissível possuir tal posição. Entretanto, os malucos, os marginais e os cheios de medo ainda me procuravam para algum conforto. “Ela só é boa em ajudar os outros, mas é toda perdida.” “Quer ser psicóloga, mas está mais para psico alcoólica” “É mais forte que eu, forte como um soco” , ouvia coisas desse tipo e me sentia melhor, outras vezes ficava o dia inteiro pensando na imagem que projetava naquela corja. Deveria ter coragem e assumir o posto de meretriz do demônio, dançar e entreter ao máximo todos os julgados a arder no inferno. Contudo, ainda não tinha me livrado do medo e da respiração repleta de ansiedade, de dose em dose continuava a menosprezar os idiotas e seguia meu caminho…
 Não tendo como desistir do proposto, não fugi da representação do meu papel, mesmo diante de todos os problemas, estava certa de que aquela noite seria especial. Satanás, com seu ar superior e sarcástico de sempre, estava pronto para ver sua aprendiz dançar e hipnotizar os condenados.
 A música ficava cada vez mais alta, eu, a suposta rainha, encarei todos os demônios presentes, me fiz parte do imaginário, ditei o ritmo e diabolicamente tudo parecia bem.  Ao final da festa todos pareciam surpresos com a desenvoltura, até mesmo o Diabo. Havia abandonado a respiração insegura, enfrentei todos os olhares e comentários da sala, andei até Satã e disse:
“Por favor, não saia de mim. Eu preciso de mais do que aconteceu hoje. Não suma da minha vida”. 
Pela primeira vez o Diabo não disse nada, apenas pediu um drinque e acendeu um cigarro. Olhou-me profundamente, como se pudesse ler minha alma, - e de fato podia - , deu um sorriso tão canalha quanto minha súplica, e isso, pra mim, valia de resposta.

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