sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ÁGATHA, A VADIA DAS CONSULTAS RÁPIDAS E GROSSEIRAMENTE NECESSÁRIAS

Ágatha estava cansada dessa porra toda, de gente pedindo conselho o tempo todo e das malditas lembranças que apareciam em suas conversas com demônios. Embora já conseguisse falar sobre pragas sem chorar, ainda não se sentia bem lembrando de alguns seres desgraçados que exigiram dela algo que ainda não sabia oferecer, talvez ela merecesse a maldição, talvez apenas tivesse sido mal compreendida. Enfim, buscaria na alma de alguns condenados um compreendimento sobre infortúnio nela lançado. A moça tinha ciência de que não vivia uma calamidade assim tão cruel, mas volta e meia, tinha vontade de anular tudo que havia escutado, para que pudesse viver de maneira mais leve.

Recebeu um cliente aflito que a atacou sem meias palavras, fazendo um bombardeamento de perguntas. Ela planejava uma consulta rápida, porém grosseiramente necessária. Não tinha tempo e nem vontade para atender causos entediantes, arrancaria o que ele tinha de pior, com objetivo de eliminar sentimentos mínimos de uma vez.

"Já fez sexo a três?"

"Seria mais fácil responder quando eu não fiz. Mas sinto que não é isso que veio procurar. O que realmente você quer saber?."

"Eu não consigo sentir nada, me ajuda? Acho que entrei num casulo muito grande..."

"A gente que constrói nossos casulos, filho. Você criou isso, certamente poderá aguentar. Está com medo de bons momentos? Não pode viver nessa proteção o tempo inteiro, relaxe que uma hora isso se rompe. O que o aflige tanto?"

"É que tenho andando muito triste, queria saber como faço pra ser feliz, você sabe o que posso tentar?"

Nessa hora Ágatha resolveu não responder rispidamente, pensou, serviu-se de um vinho barato e olhou pros cantos da sala, como se as paredes daquele lugar pudessem ajudar a compor uma resposta convincente. Como caralhos aquele ser de espírito atordoado poderia aconselhar alguém a ser feliz? Voltou seus olhos enormes para o rapaz, e prosseguiu:

"Não sei te responder, talvez se você souber o que está te envenenando, achará a receita para o antídoto... Vomite os pedaços embolorados do pão que o demônio te ofereceu, cuspa na cara de Deus, se isole, morra por uns dias. Ressuscite para encontrar novos parceiros de insanidade... A cura da tristeza deve envolver coisas assim. Veja bem, estou somente sugerindo, sabe que tudo parte de você. Nosso conceito sobre a felicidade pode ser diferente... Anyway."

"Digo, acredito que tenho a receita, mas não consigo por em prática. Não sei o ponto certo de tirar tudo do fogo e me servir, também não sei se deixo esfriar ou se me empaturro com tudo ainda muito quente. Como eu faço? Sabe, é como se eu já tivesse feito tudo, mas mesmo assim nada mudou. Ainda sinto tudo muito cru. "

"É o que tenho me perguntado todos os dias, mon chér. Quem sabe falte vinho no tempero de nossas carnes, talvez criemos anticorpos nos alimentando um do outro. Pode ser que, eventualmente, seja esse o rompimento do casulo, ou o sabor que tanto procuramos... Aceita beber comigo essa noite?"

Ele era um dos poucos clientes que não buscava respostas no álcool, recusou o convite da moça e agradeceu o papo. Ele se sentiu melhor em ver que Ágatha não era inatingível, não se fez de boazinha e cutucou a ferida onde mais doía, tanto a dele, quanto a dela. Seguiu seu caminho e deixou a moça livre para morrer um pouco.

Assim que o rapaz deixou o recinto, Ágatha pediu ajuda para Eric Clapton, que clamava à Layla que parasse de se esconder, e que também acalmasse a mente daquele pobre homem, cujo nome estava listado entre os maiores guitarristas do mundo. Como de costume, o sorriso cínico da vadia surgiu, agora tudo parecia piada. Permaneceu bebendo e dançando sozinha, fazendo o melhor que podia daquela situação, aumentou o som,
a música traduziu seu sentimento e a ajudou a enterrar a praga. Finalmente tinha externado o pouco caso que deveria ter dado às palavras que ouviu quando foi amaldiçoada. Sentiu a presença de Satanás, assumiu sua melhor forma, ofereceu um drinque aos demônios da guarda e brindou à morte do praguejador.

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