terça-feira, 29 de setembro de 2015

NÃO ABRO O CONSULTÓRIO PARA OS MEDROSOS QUE CLAMAM POR CAOS, MAS QUEREM MESMO É MISERICÓRDIA

Existem pessoas que vão à igrejas, eu procuro paz no caos. Me agrada algo que transborde qualquer tipo de euforia, que vença a preguiça de interagir. Os dias em que resolvo socializar sempre me rendem bons causos e risadas escandalosas. E não há nenhuma outra coisa no mundo que eu goste mais do que pessoas que me fazem rir escandalosamente e deixam de herança assuntos pra mais de meses. O consultório se abre em mesas de bares, danças ridículas, motéis baratos, casa de amigos ou até mesmo de desconhecidos. Contudo, ele só permanece aberto aos descompensados que tem coragem de se confessar e dar crédito a uma alma tão perdida quanto a deles, a minha.

Uma noite saí do inferno com a deusa Strutter e um pobre demônio sem entusiasmo. Faríamos algo prometido há alguns anos, coisas que alguns condenados insistem em pedir quando estamos juntas. Acontece que nem sempre gostamos do mesmo cara, ocorre de forma natural, a gente sente quando um homem será nosso e nós seremos dele. Com ele ainda não havia acontecido esse pensamento sincronizado, mesmo assim, pedia uma noite conosco desde que soube de nossa parceria. Não pensei que ela aceitaria prontamente, mas se mostrou até mais animada que eu - que entro em todas suas loucuras sem pensar- talvez fossem as doses fortes que já tínhamos tomado, mas me confessou que era apenas vontade mesmo. 

No caminho tudo parecia ganhar vida, menos um motorista, que sozinho observava pelos retrovisores três indivíduos no banco de trás, com tesão incontrolável e respiração forte que embaçava os vidros. Dificultávamos  a concentração do pobre coitado, que dividia atenção entre os faróis do trânsito, nossas ações e as reações de seu amigo pedinte. Mãos por entre seios, e pernas que de tão grandes se enroscavam uma nas outras, risos irônicos, lambidas que arrancavam piercings, curiosidade dos outros carros, garrafas e calças abertas, provocações de nível absurdo para os ouvidos destreinados do condutor. Sempre achei engraçado como os homens se portam quando são agraciados por duas mulheres, eles não sabem se agradecem aos deuses ou se pedem para ir direto ao inferno. Denunciam no olhar, sussurros e xingamentos o quanto é satisfatório entrar em êxtase pelas provocações da praga mais prazerosa de aguentar. Estar no meio de uma maldição assim, desperta o pior lado de todas as partes envolvidas, até mesmo daqueles que sentem medo dos demônios que os perseguem. Cabe aos amaldiçoados entrar na dança, ou fugir... Acreditem, poucos aceitam a condição e entram no salão de festas do Diabo. São raros os que permitem se envolver pelos riffs satânicos que despertam o ritmo mais gostoso de seus corpos. 

Pois bem, naquela noite chegamos os 4 na casa do motorista, que não teve nenhuma reza maldita rogada sobre ele e serviu apenas de caminho para que a insanidade tomasse conta do seu lar. Strutter estava com seus saltos mais altos, o que a deixava ainda mais desejável. Era como se assumisse uma outra forma. Seios a mostra em renda preta, provocações públicas, um sorriso demoníaco, tudo nela inspirava e respirava sexo. Estando daquele jeito poderia comandar o inferno no lugar de Satanás. Eu estava montada no colo do ser sem alma que tirava minha roupa, enquanto bebíamos e ríamos daquela situação toda. O pobre amigo sem demônios nos olhos também tentou entrar na brincadeira, dispensei. Não me agrada atender quem sugere pouco, gosto de excessos. Mesmo que seja o dono casa, não me encanta quem finge gostar da bagunça, mas prefere a paz que embrulha o estômago. Aquele tipo que sente vergonha de seus desejos, que não se dá conta do quanto se torna patético fazendo tudo sempre recheado de mesmice e normalidade. Pessoas assim não sentem o caos, não sabem aproveitar isso, nunca enlouquecem, muito menos ousam se aproximar dos loucos. No máximo eles observam e sonham fazer igual, mas falta talento, falta não prestar, e digo não prestar no melhor sentido dessa expressão. Falta não prestar para histórias ruins, bebidas fracas e paixões tediosas. O mal de alguns caras que assistem esses episódios da minha vida, é achar que as coisas acontecem de forma bagunçada, com entrada franca para tolos. Não, não é assim que funciona. Digo, quando duas mulheres escolhem dividir o mesmo cara é porque elas o querem gratuitamente, não cabe de modo nenhum outro sujeito. Um outro nunca despertará o que o escolhido acordou naqueles seres imprevisíveis, que brigam, destroem vilas e se matam, apenas pra ter a exclusividade de uma foda. 

O chofer saiu de cena desanimado e preocupado com o barulho que poderia acordar seus vizinhos reclamões, de verdade não estava me importando com nada. Aumentamos a música, que era Fade to Black, do Metallica, com a melodia envolvente e os riffs que excitavam e me mantinham de joelhos com a boca suficientemente ocupada e impossibilitada de cantarolar o refrão que tanto gosto. Queria apenas chupar aquele ser, de uma maneira que desse vida aos seus demônios, minha vontade era sugar sua alma, assim o libertaria das histórias medíocres que contava. Um sussurro, dois, olhei pra cima e sorri, ele já não controlava a respiração, não ameaçava tapas ou xingamentos, apenas respirava mais forte. Minha deusa tomava seus drinks e observava tudo atentamente, pedi por sua presença, poderíamos melhorar aquela cena evocando o pior de cada um. Não haveria salvação, Satanás estava lá e sentíamos a força que exercia em momentos daquele tipo. Strutter, ainda mais linda, serviu-se de mais bebidas e caminhou até nós, com o sorriso mais sarcástico e excitante do universo. São coisas que não resisto: Sorrisos sarcásticos, álcool e histórias boas. De alguma maneira todos esses itens estavam servidos, e obviamente aproveitei para me empanturrar de tudo que aquela noite estava ofertando. 

A Deusa veio até mim com o som alto de Sad But True, anulando a terceira parte daquele cenário, dominando tudo e enchendo o lugar com seus gemidos e gestos sexuais, sem se preocupar com os pedidos de silêncio que o dono da casa havia feito a alguns momentos antes. Me arrancou dos braços do mortal, agarrava-me pela alma e me chupava com força, invadia corpo e espírito, fazia comigo o que bem entendia. Xingava, segurava, batia, poderia até me matar, pois eu mesma já implorava por isso. Esquecemos os demais praguejando uma sobre a outra. Eu jurava ódio, ela dizia que me amava, ele só assistia e dava o veredito "Malucas!". 

Coitado, pedia permissão para voltar à cena, não soube mandar nas loucas que assistia. Tentou algumas vezes, porém, já não despertava mais nada em nós, não tinha autoridade sobre nossos corpos e passara bem longe de dominar nossas almas. Acabou se conformando em fazer parte da platéia, conseguia apenas rir de nossas perguntas "Está assustado?" - "Não, é que vocês são muito loucas mesmo" -"Por que? Vocês está com medo? Vem brincar com a gente também!" - "Não é isso, é que vocês realmente são loucas!". Não insistimos em ter novamente sua participação, nós nos transbordávamos e mostrar o quanto poderíamos nos divertir sem ele também era bastante agradável. O diabo havia receitado doses fortes de exibicionismo, o obedecemos. Seguíamos os ensinamentos do senhor das trevas, "O inferno era um lugar de muitos", não tinha como buscar paz com medrosos, aqueles que imploram por pragas , mas quando elas chegam, pedem por misericórdia.  Isso não despe a aura. Não aguenta doses fortes e caras. Não faz o consultório se manter aberto. 

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