A música era Piece Of My Heart, da Janis Joplin, que não estava mais no último volume, mas o pedido forte de “arranque outro pedaço do meu coração agora, baby” permanecia no repeat. Ágatha não estava cansada, permanecia tranquila e tentava se reorganizar para atender o próximo cliente ou simplesmente para morrer um pouco sozinha em casa.
Cinzeiro cheio, copos vazios, roupas espalhadas e a conclusão da moça: “Definitivamente esse é o lugar de uma puta atormentada pelo demônio.” Respirou fundo e trocou de música, agora mexia o corpo, ao som de Alabama Shakes, a letra e o balanço gostoso de I don’t wanna fight no more, estavam alinhando seus chakras e trazendo à tona a melhor versão daquela garota. Ela acreditava que quando a música traduzia seus sentimentos, não precisava de mais nada, sentia que seu encosto a abraçava amistosamente, e dançava todas as desgraças que já havia vivido, além de rir escandalosamente de todas as maluquices que tinha realizado para conseguir um pouco de paz. Isso valia de oração e também trazia um pouco de sorte.
Era necessário um pouco de agito, o trabalho tinha seu glamour, aos olhos dos outros, e conferia certa segurança para ela, mas a face verdadeira de Ágatha preferia dançar entre os loucos, ouvir suas histórias e reinventar-se com paixões passageiras. Algumas reais, outras existentes apenas em seu imaginário. Contudo, vivia todas da maneira mais intensa que os pecados lhe permitiam e que o diabo havia ensinado. Gostava também de oferecer pequenos goles de sua alma a quem a rodeava, seu propósito era permanecer embriagada com o espírito dos que, de alguma forma, estavam condenados a ter a presença da perturbada suburbana em seus caminhos.
Às vezes suas noites tinham gosto de café sem açúcar, não havia par para dançar, mesmo que ofertasse seus serviços de maneira gratuita. Ela poderia reproduzir conteúdo e provocar o mais feroz dos instintos em qualquer um, ouvir causos, ou simplesmente servir de companhia para confissões em troca de alguns copos de whisky. Porém, em noites ruins, às vezes, a requisitada meretriz de Satanás não tinha história romântica pra contar ou ouvir. Alguns clientes podiam se alegrar sem ela por semanas, ela enlouquecia por ciúmes e exagerava nos porres nesse período, mas, quando anunciavam a volta, os recebia ainda mais violenta e apaixonada.
Era necessário um pouco de agito, o trabalho tinha seu glamour, aos olhos dos outros, e conferia certa segurança para ela, mas a face verdadeira de Ágatha preferia dançar entre os loucos, ouvir suas histórias e reinventar-se com paixões passageiras. Algumas reais, outras existentes apenas em seu imaginário. Contudo, vivia todas da maneira mais intensa que os pecados lhe permitiam e que o diabo havia ensinado. Gostava também de oferecer pequenos goles de sua alma a quem a rodeava, seu propósito era permanecer embriagada com o espírito dos que, de alguma forma, estavam condenados a ter a presença da perturbada suburbana em seus caminhos.
Às vezes suas noites tinham gosto de café sem açúcar, não havia par para dançar, mesmo que ofertasse seus serviços de maneira gratuita. Ela poderia reproduzir conteúdo e provocar o mais feroz dos instintos em qualquer um, ouvir causos, ou simplesmente servir de companhia para confissões em troca de alguns copos de whisky. Porém, em noites ruins, às vezes, a requisitada meretriz de Satanás não tinha história romântica pra contar ou ouvir. Alguns clientes podiam se alegrar sem ela por semanas, ela enlouquecia por ciúmes e exagerava nos porres nesse período, mas, quando anunciavam a volta, os recebia ainda mais violenta e apaixonada.
Escondia as mágoas que sentiu ao ser substituída, em mordidas e arranhões, tapas e puxões de cabelo. Ágatha gostava de demonstrar da maneira mais bruta possível a importância que tinham pra ela. Batia com força pra derrubar, mas não deixava cair. Exagerar era seu dom, como leu em Henry Miller certa vez, “Era uma vadia de alto a baixo, e essa era sua maior virtude”. Não vivia apenas de vadiagens, se preocupava verdadeiramente com seu rebanho. Sabia que não acreditavam na sua versão amorosa. Talvez gostassem, e preferissem, a hipérbole que ela fazia da vida de todos.
Essa noite teria que atender um novo cliente, ele a procurou acreditando que a louca aceitaria sexo com indiferença, sem troca de sentidos, o sexo cru e simples oferecido por qualquer ser que não renda boas histórias:
- Você realmente paga por isso? Por coisas sem alma?
- Sim. Prefiro. Não quero dar, muito menos receber, carinho de ninguém. Me interessa apenas meter e sair fora. Não sei lidar com interações, eu quero que sumam depois. Não me apetece dormir de conchinha com ninguém.
Ela fitou seus olhos enormes e bem delineados no rapaz e o analisou friamente. Era um homem bonito, com uma aura sexual que fazia com que mulheres de todas as partes o notassem e o quisessem, mas para Ágatha ele transmitia outro sentimento, carinho puro e só.
Essa noite teria que atender um novo cliente, ele a procurou acreditando que a louca aceitaria sexo com indiferença, sem troca de sentidos, o sexo cru e simples oferecido por qualquer ser que não renda boas histórias:
- Você realmente paga por isso? Por coisas sem alma?
- Sim. Prefiro. Não quero dar, muito menos receber, carinho de ninguém. Me interessa apenas meter e sair fora. Não sei lidar com interações, eu quero que sumam depois. Não me apetece dormir de conchinha com ninguém.
Ela fitou seus olhos enormes e bem delineados no rapaz e o analisou friamente. Era um homem bonito, com uma aura sexual que fazia com que mulheres de todas as partes o notassem e o quisessem, mas para Ágatha ele transmitia outro sentimento, carinho puro e só.
Pediu um cigarro para seu acompanhante e continuou o papo:
- Não trabalho com esse tipo de coisa. Mas quero te ouvir, e faço isso por uns tragos e alguns drinques, mas na bebida e na conversa eu não quero gelo, rapaz. Seja insano em suas confissões. Como não deseja a troca de almas em uma foda, te oferecerei outro tipo de serviço.
Ele ficou surpreso com a negação da moça e na audácia dela insistir em falar sobre coisas quentes, quando pra ele as mornas bastavam. Mesmo assim, acendeu o cigarro da menina, pediu os drinques e passou a divagar sobre seu desinteresse:
- Eu pago por isso, porque já tive muitos relacionamentos falidos. Larguei mulheres, elas me largaram, as troquei por noites de farra e até por noites de trabalho. Por vezes preferia dormir do que dar uma trepada, isso foi as cansando e elas me deixaram. Então desisti. Eu pago pra não ter carinho, pois não sei lidar com essas coisas gratuitamente.
Para Ágatha ouvir aquilo era como um torção no pâncreas, claro que qualquer coisa de relação clichê não era com ela. Não fazia o tipo que gostava de dormir abraçada, embora adorasse receber esse tipo de convite, mas evitava ao máximo esse tipo de aproximação. Dormia de conchinha por meia hora e voltava pra casa. Mesmo assim, não deixava de entregar seus demônios a quem solicitava sua presença:
- Eu acho que você nunca transou direito. Me perdoe a franqueza, mas acredito que seu problema, aliás, que a cura para essa sua preguiça, seja uma louca que te chupe apenas porque gosta de chupar e não por obrigação. Falta uma mulher que te ofereça loucura e que você aceite as sandices dela. Nem que seja algo breve, pelo menos para que essa nuvem vá embora.
Interpretando a segura pisco alcoólica, teve a certeza de que não seria ela a salvadora das noites daquele moço, mas estava disposta a ajudá-lo a ter coragem de se permitir a uma garota anormal, dessas que não gostam de receber flores, que falam o que sentem sem esperar ocasião, um tipo de Ágatha. As filhas de Apolo com Afrodite, apadrinhadas por Hades… Bacantes, frequentadoras assíduas das festas de Dionísio:
- Sempre me preocupei em dar prazer às minhas namoradas. Lia manuais, perguntava o que gostavam, me preocupava que elas se sentissem bem, mesmo que eu não estivesse satisfeito...
A gargalhada da moça estremeceu o bar, ele olhava sem saber como reagir, esperou que a risada cessasse, acendeu outro cigarro e perguntou o motivo do escândalo, ela respondeu:
- Eu ri, e daria risada disso a noite inteira. Você lia sobre dar prazer? Ótimo! Mas o que você sentia? O que te movia? Que tipo de praga era preciso rogar para que seu pior lado aparecesse? É sobre essas coisas que estou falando. É com isso que eu trabalho, mon chér. Troque vontades. Por favor, não seja como uma via de mão única. A não ser que queira passar o resto de seus dias pagando por pouco... Eu prefiro gastar meu dinheiro com coisas melhores, mas não vou exigir de você os meus comportamentos, nem os meus ideais. Quer uma dica? Chegue em casa e ouça Stones, de preferência a versão de Rock me baby com as guitarras do AC/DC, isso pode te ajudar. Eu preciso ir, lamento não poder te ajudar de maneira sexual, mas gostei do papo. Chame sempre que quiser, o consultório estará aberto.
A moça levantou e deu um beijo na testa do “paciente”, ajeitou seu vestido curto e saiu desfilando seu corpo diabólico nos saltos enormes que a caracterizavam por onde passava. Ele permaneceu fumando e bebendo, agradeceu a dica e ficou de chamar a agradável descompensada mais vezes.
Ágatha chegou em casa e ligou o som com moves like a Uma Thurman e os estranhos do Urge Over Kill diziam “Girl, you’ll be a woman, soon…” e da maneira mais cínica, ela voltou para suas doses e retrucou “O dia em que eu me tornar mulher, meus caros…” E sorriu, com o prazer que somente os bons papos e o álcool lhe proporcionavam. Aquela não havia sido uma noite ruim, mas o início de noites incrivelmente melhores.
- Não trabalho com esse tipo de coisa. Mas quero te ouvir, e faço isso por uns tragos e alguns drinques, mas na bebida e na conversa eu não quero gelo, rapaz. Seja insano em suas confissões. Como não deseja a troca de almas em uma foda, te oferecerei outro tipo de serviço.
Ele ficou surpreso com a negação da moça e na audácia dela insistir em falar sobre coisas quentes, quando pra ele as mornas bastavam. Mesmo assim, acendeu o cigarro da menina, pediu os drinques e passou a divagar sobre seu desinteresse:
- Eu pago por isso, porque já tive muitos relacionamentos falidos. Larguei mulheres, elas me largaram, as troquei por noites de farra e até por noites de trabalho. Por vezes preferia dormir do que dar uma trepada, isso foi as cansando e elas me deixaram. Então desisti. Eu pago pra não ter carinho, pois não sei lidar com essas coisas gratuitamente.
Para Ágatha ouvir aquilo era como um torção no pâncreas, claro que qualquer coisa de relação clichê não era com ela. Não fazia o tipo que gostava de dormir abraçada, embora adorasse receber esse tipo de convite, mas evitava ao máximo esse tipo de aproximação. Dormia de conchinha por meia hora e voltava pra casa. Mesmo assim, não deixava de entregar seus demônios a quem solicitava sua presença:
- Eu acho que você nunca transou direito. Me perdoe a franqueza, mas acredito que seu problema, aliás, que a cura para essa sua preguiça, seja uma louca que te chupe apenas porque gosta de chupar e não por obrigação. Falta uma mulher que te ofereça loucura e que você aceite as sandices dela. Nem que seja algo breve, pelo menos para que essa nuvem vá embora.
Interpretando a segura pisco alcoólica, teve a certeza de que não seria ela a salvadora das noites daquele moço, mas estava disposta a ajudá-lo a ter coragem de se permitir a uma garota anormal, dessas que não gostam de receber flores, que falam o que sentem sem esperar ocasião, um tipo de Ágatha. As filhas de Apolo com Afrodite, apadrinhadas por Hades… Bacantes, frequentadoras assíduas das festas de Dionísio:
- Sempre me preocupei em dar prazer às minhas namoradas. Lia manuais, perguntava o que gostavam, me preocupava que elas se sentissem bem, mesmo que eu não estivesse satisfeito...
A gargalhada da moça estremeceu o bar, ele olhava sem saber como reagir, esperou que a risada cessasse, acendeu outro cigarro e perguntou o motivo do escândalo, ela respondeu:
- Eu ri, e daria risada disso a noite inteira. Você lia sobre dar prazer? Ótimo! Mas o que você sentia? O que te movia? Que tipo de praga era preciso rogar para que seu pior lado aparecesse? É sobre essas coisas que estou falando. É com isso que eu trabalho, mon chér. Troque vontades. Por favor, não seja como uma via de mão única. A não ser que queira passar o resto de seus dias pagando por pouco... Eu prefiro gastar meu dinheiro com coisas melhores, mas não vou exigir de você os meus comportamentos, nem os meus ideais. Quer uma dica? Chegue em casa e ouça Stones, de preferência a versão de Rock me baby com as guitarras do AC/DC, isso pode te ajudar. Eu preciso ir, lamento não poder te ajudar de maneira sexual, mas gostei do papo. Chame sempre que quiser, o consultório estará aberto.
A moça levantou e deu um beijo na testa do “paciente”, ajeitou seu vestido curto e saiu desfilando seu corpo diabólico nos saltos enormes que a caracterizavam por onde passava. Ele permaneceu fumando e bebendo, agradeceu a dica e ficou de chamar a agradável descompensada mais vezes.
Ágatha chegou em casa e ligou o som com moves like a Uma Thurman e os estranhos do Urge Over Kill diziam “Girl, you’ll be a woman, soon…” e da maneira mais cínica, ela voltou para suas doses e retrucou “O dia em que eu me tornar mulher, meus caros…” E sorriu, com o prazer que somente os bons papos e o álcool lhe proporcionavam. Aquela não havia sido uma noite ruim, mas o início de noites incrivelmente melhores.
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