Quando estava na primeira série escrevi na carteira "Jonas bonito", eu tinha seis anos e noção nenhuma de namoricos de criança, mas, resolvi deixar registrado que o menor menino da sala,que mesmo sendo bagunceiro conseguia estar entre os queridinhos da professora, tinha a atenção dos meus olhos, quase sempre voltados para as borboletas e pássaros fora da sala do que para a matéria na lousa propriamente. Além de registrar na mesa, fui tonta o suficiente para permitir que os outros vissem meu escrito e mostrassem a declaração para a 1ª D inteira. Crianças são o diabo em miniatura,e, em vez de apoio, recebi doses da mais pura e forte tiração de sarro. É, eu era/sou bem esquisita mesmo, não para o lado espanhol, e sim no sentido de estranhona mesmo. Naquela idade já tinha o tamanho, e a brutalidade nas palavras, que tenho hoje, mesmo sendo a mais nova da turma. O menino bonitinho era cotado para representar a beleza da escola sendo noivinho em festa junina ou na frente da turma em qualquer outra atividade, justamente por ter sete anos, mas tamanho e fofura de uma criança de três. Me restava sempre o papel de coadjuvante, menos quando o assunto era por medo em alguém. Nesse caso eu era a melhor em anotar nomes, levar a fila, em sair correndo atrás, em assustar... Acredito que aquelas professoras hoje em dia teriam a licenciatura cassada, era um caso tipico de bullying que ninguém dava importância. Se minha mente fosse fraca, voltaria lá e mataria todo mundo. Ou não.
No outro ano, com outros colegas e outro menino mais bonito da escola, também tive uma paixonite, dessa vez, sem escrever em locais públicos, apenas no espelho de casa embaçado pelo vapor do banho. Esse se chamava Luis Henrique, e pra melhorar as coisas, outra menina, também super bonitinha, também era apaixonada por ele. O casal coisa fofa da segunda série tinha apoio do corpo docente inteiro, mesmo eles nunca se falando. Nós dois éramos amigos de vida acadêmica oposta: Ele um legítimo semi alfabetizado da segunda série, com dificuldade em números e leitura, mas habilidade incrível para estressar e prejudicar a saúde mental de uma profissional em educação infantil com anos de magistério, e eu, uma aspirante a CDF, com o cabelo sempre armado, joelho ralado, braço quebrado e uniforme sujo de toddy, que gostava de se misturar com os piores alunos da sala. Em casa havia muita cobrança em relação aos estudos, mas nada me impedia de ter amigos bagunceiros e burros, muito menos de andar com eles pra cima e pra baixo. A garota que também gostava dele, uma vez me pediu ajuda para avisá-lo que seriam namorados, caso Luís aceitasse o pedido, e que deveriam lanchar juntos. Foi bem difícil fazer aquele favor, e mesmo com a autoestima ferida, levei o recado. Vocês devem pensar "Porra, mas se gostava do cara era melhor não ter aceitado passar por uma situação dessas e abrir o jogo pro moleque, ele não iria adivinhar.", pois bem, nunca tive noção de como agir pra ter um namoradinho, ter um par não estava nas minhas prioridades. Sempre acreditei no "Tá na cara que eu gosto, pra que falar?", enfim. O acontecido se deu durante uma brincadeira de menino pega menina, e foi na lata "A Letícia quer falar com você! Quer ser sua namorada" e a resposta mais na lata "Mas você é que é minha namorada!" . Não entendi nada, mas caí na risada e continuamos brincando, e nosso "namoro" era baseado em brincar de lutinha, rir um do outro e sentar separados pela professora que apoiava o casal Letícia e Luís. Eu junto dele era apenas encrenca, uma perda de tempo, pois ele poderia atrapalhar meu rendimento e eu não podia andar com um aluno que batia cartão na diretoria de tantas broncas que levava. Nunca confessei que gostava dele, nunca fomos o casal de bonitinhos, ele mudou de escola e eu arranjei outro pra me atazanar.
O terceiro "amor" veio na terceira série. Lucas, o bagunceiro inteligente. Aí eu já entendia que os certinhos não mexiam comigo, gosto dos que me fazem rir, mesmo que eu seja o motivo das piadas idiotas. Esse, além de ser da turma bagunceira, tinha também as melhores notas. Sempre falando mais que a boca e ligando em casa quando eu já estava dormindo, contentando-se em falar com meus pais sobre a aula, o recreio e os livros que a professora havia passado. Nossa promessa era namorar quando fizéssemos 16 anos, até lá, seríamos apenas melhores amigos. Não sei que fim deu esse cara, sei que depois dele passei a esconder todas as minhas paixões. Platônicas ou não - aliás não alimento paixões platônicas, busco a reciprocidade - . Nunca dava certo, me sentia feia perante as outras pretendentes e me contentava nas amizades. Umas coloridas e outras não, a maioria não. Todas muito boas, vale deixar bem claro. Com essas parcerias, adquiri o hábito de não lidar muito bem com casais, mesmo nas vezes que tentei ser um. Minha vontade maior era de rir e fazer bagunça, não de ter compromissos pautados em diga que me ama, escreva nossos nomes e coloque um coraçãozinho no papel, vamos usar aliança e todas essas coisas. Mesmo bancando a desapegada, nada do que aconteceu me impediu de ser uma louca ciumenta. Ainda sobre casais, não que eu não goste, apenas não sei lidar com alguns, não sei o que dizer ou como agir diante deles. Isso piora quando é um casal amigo que insiste em me colocar no meio de discussões em mensagens, telefonemas e caronas. Eu não tenho saco! Costumo dizer que pra transar ninguém chama, mas pra fazer reclamação, comprar presentes e outros atos que não me apetecem, passam horas falando comigo.
Não me afastei totalmente de pares, com alguns a aproximação foi instantânea, sem qualquer outro tipo de interesse, sem nada que irritasse a convivência e com abertura suficiente para que quando houvesse qualquer início de chateação um "vão tomar no cu" resolvesse tudo. Há um tempinho atrás, quatro anos exatamente, rompi com esse negócio de ser casal sem ser amigo, esse negócio de ter que ser outra pessoa na frente do cara, esconder a loucura e tals. De recompensa me juntei a um casal de grandes amigos e vivemos juntos. O mais engraçado nesse período era a reação dos outros em relação a nossa vida, do que nosso modo de viver mesmo. Acontece que choca muito mais eu chegar num lugar beijando um homem e uma mulher, do que um cara que deixa a mulher em casa e sai apresentando outra como namorada para os amigos, isso nós vemos aos montes e ninguém questiona. Particularmente, eu achava mais elegante ser um trio de namorados. Mas é aquele ditado né "Minha vida é minha e a sua que se foda". Cada um sabe como jogar suas cartas. Meu trio maravilha acabou e foi muito bom durante os três anos que durou. Não haverá no mundo relação mais aberta e verdadeira do que a que tivemos, o amor que compartilhamos é um sentimento que será dividido pra sempre, mesmo sem toques sexuais e noites de farra. Desde então, mesmo quando faço parte de um casal normal, penso em ser um trio de vez em quando. É bom sair dessa coisa padronizada, ou talvez seja apenas a dificuldade em encarar a vida a dois mesmo. Isso não quer dizer que eu deseje passar a vida inteira dividindo amores, não. É somente uma maneira de divertir e desmistificar as relações.
Há algumas semanas saí pra beber com uma amiga e nos demos conta que mesmo sendo duas pessoas conhecidas por não gostar de ninguém de primeira, temos os mesmos gostos e às vezes os mesmos gestos. A conheci em um grupo de amigos e entramos em sintonia desde o primeiro dia em que nos vimos. Não sei se por artimanha do demônio que nos uniu, ou por afinidade de vidas passadas. Ocorre que a gente se gosta a ponto de passar horas juntas fazendo e falando muita coisa boa, talvez errada para a maioria, mas deliciosas ao nosso modo de ver o mundo. Entre nossos pontos em comum, temos o fato de não saber lidar com casais. Ela comentou que em uma das conversas com o namorado, alertou não saber o que fazer com o domingo típico de casais, recheado de filmes, preguiça e cama, que era chato discutir por ciúmes de roupas, amigos e mais o que quer que fosse. Assim como eu, ela é louca e ciumenta com amigos, tem tolerância zero para briguinhas e mimimis totalmente desnecessários. Funciono da seguinte maneira, se meu garoto disser que iremos transar de manhã, de tarde e de noite, todos os dias, não acharei ruim. Estarei linda, bela, cheirosa, disposta e depilada para qualquer chance de sexo, porém, caso haja dr's o dia inteiro, eu terei preguiça de permanecer na relação. Entendem? Meu problema é com a forçação de barra. Essas palavras são dela, mas eu também poderia ter dito as mesmas coisas sem mudar uma vírgula. Por isso que a gente vive junto e se dá bem e é por isso também que há algum tempo, nem tanto assim, fomos um dos melhores trios inesperados da minha vida.
Mesmo com toda essa aversão à relações padrão, fui convidada para ser madrinha de um casal do qual nunca participei e que nem conhecia a noiva. Cerimônia religiosa e tudo. Ta aí, coisas que não gosto: Igreja e Casamento. Acho difícil amar alguém a ponto de misturar Estado, Família e Religião, isso é sandice. Até hoje não entendi o motivo de me escolherem, creio eu que havia um número mínimo de padrinhos e me colocaram lá no altar para completar a foto. No sermão, o padre pediu que os noivos formassem família, isso eu acho importante. É gostoso ter um final de semana com churrasco carregado de carne, cerveja, amigos, tios, sobrinhos, primos e muita bagunça. Ao continuar sua palestra motivacional para que os noivos não desistissem da nova vida, ele também pediu que a nova geração viesse sob os ensinamentos de Cristo, aí já não é comigo, posso formar uma família sob os ensinos de Don Corleone, ou com as canções e truques de Mogli, quem sabe até ensinando a cumplicidade dos 11, 12 e 13 homens de Daniel Ocean. Pra mim, isso não era da conta do padre, mas o casamento não era meu, e visto a minha desavença com assuntos religiosos, nem poderia. Quando me casar, se me casar, certamente será uma cerimônia em Vegas, ou em qualquer bar, regada a álcool, muita comida, gritos de Vai Corinthians e música dos Stones. Sem necessidade de qualquer padrão imposto e longe de qualquer autoridade religiosa.
Imagino que meus votos malucos sejam mais verdadeiros dos que o que o padre pediu para que meus primos falassem. Deu uma leve vontade de casar e caso eu tivesse que proferir coisas boas para uma nova vida à dois, elas seriam ditas assim "Eu prometo amar, cuidar e respeitar. Na saúde e na doença. Somente na riqueza, pois riqueza atrás riqueza. Caso haja pobreza, que seja passageira e sem sofrimento. Que as noites de sexo sejam também dias, tardes e madrugadas. Que ato de dar boas chupadas um no outro seja mais importante do que brigar pra ver quem vai lavar a louça. Que sejamos um trio sempre que uma amiga gostosa mostrar interesse. Que o selo marido e mulher não caia como uma cruz em nossas costas. Que a parceria de beber, falar merda e dar risada não se acabe por coisas pequenas. Em nome de Jimmy, Mick e Tyler. Sem troca de alianças. Goles de whisky e bora dançar."
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